Pedro Soriano, os versos

Pedro Soriano foi o heroi de um
casamento simulado que houve em
Lisboa. Tinha o membro viril des-
envolvidissimo. Uns amigos de Jun-
queiro, encarregaram-se de lhe
apresentar o Soriano, porque tendo
contado a Junqueiro a enormi-
dade do membro, ele dissera que
exageravam. Junqueiro viu e excla-
mou: «
Tamanho membro merece
um poema
».

Esse poema é o que se segue:

 

A Torre de Babel         

ou a Porra do Soriano

Poema de Guerra Junqueiro

 

Eu canto do Soriano o singular mangalho !
Empreza colossal ! Ciclopico trabalho !
   Para o cantar inteiro e o cantar bem
Precisava de viver como Mathusalem.
   Dez seculos !
                Enfim, n'esta pobresa métrica
Cantemos essa porra, porra kilometrica,
d'onde pendem os colhões de que dão ideia vaga
as nadegas brutais do Arcebispo de Braga.
*
Sim, cantemos a porra, o caralho iracundo
que, antes de nervo crú, já foi eixo do Mundo !
   Mastro do Leviathan ! Iminencia revél !
   Estando murcho foi a Torre de Babel !
   Caralho singular ! É contemplal-lo
                                     É vel-o
tezo ! Atravessaria o quê ?
                            O sete estrelo !!
Em Thebas, em Paris, em Lagos, em Gomôrra
juro que ninguem viu tão formidavel porra !
   É uma porra, arquiporra !
                            É um caralhão atroz
que se lhe pódem dar trinta ou quarenta nós
e, ainda assim, fica o caralho preciso
para foder da Terra, Eva no Paraizo !!
   É uma porra infinita, é um caralho insonte
que nas roscas outr'ora estrangulou Le Comte*.
*
Oh, caralho imortal ! Gloria d'estes luzos !
Tu poderias suprir todos os parafusos
que espremem com vigor os cáchos do Alto Douro !
Onde ha um abysmo, onde ha um sorvedouro
que assim possa conter esta porra do diabo ??!
   Marquez de Valadas em vão mostra o rábo,
em vão mostra o fundo o pavoroso Oceano !
   - Nada, nada contém a porra do Soriano !!
*
Quando morrer, Senhor, que extraordinaria cóva,
que bainha, meu Deus, para esta porra nova,
esta porra infeliz, esta porra precita,
judia errante atraz de uma crica infinita ??
- Uma fenda do globo, um sorvedouro ignoto
que lhe ha-de abrir talvez um dia um terramoto
para que desagúe, esta porra medonha,
em grossos borbotões de clerical langonha !!!
*
A porra do Soriano, é um infinito assumpto !
Se ella está em Lisbôa ou em Coimbra, pergunto ?
   Onde é que começa ?
                      Onde é que termina
essa porra, que estando em Braga, está na China,
porra que corre mais que o próprio pensamento,
porque é porra de pardal e porra de jumento ??
   Porra !
          Mil vezes porra !
                           Porra de bruto
que é capaz de foder o Cosmos n'um minuto !!!

(a) Guerra Junqueiro.

*  Noutras versões dos versos, aparece "Laoconte" em vez de "Le Comte". Parece certo que era essa a intenção do poeta e que estejamos aqui perante um simples erro de transcrição do que foi ouvido. Laoconte (ou Laocoonte) é um personagem da mitologia grega que morreu estrangulado por duas serpentes.