Pedro Soriano

Versos obscenos de Guerra Junqueiro

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Advertência: contém linguagem obscena.

"Pedro Soriano foi o heroi de um
casamento simulado que houve em
Lisboa. Tinha o membro viril des-
envolvidissimo. Uns amigos de Jun-
queiro, encarregaram-se de lhe
apresentar o Soriano, porque tendo
contado a Junqueiro a enormi-
dade do membro, ele dissera que
exageravam. Junqueiro viu e excla-
mou: «
Tamanho membro merece
um poema
»."

 

Artigo publicado no Jornal de Notícias em 2 de Junho de 1953

Porto, 2 de Junho de 1953

Quem foi Pedro Soriano?
A. MESQUITA

RESPOSTA :

Pedro Soriano foi uma figura tristemente notória. Destemido, aventureiro, estouvado e pouco escrupuloso, conseguiu ocupar cargos públicos que só licitamente são confiados a pessoas de provada competência e honestidade. A sua biografia é bastante complexa, e muito dificilmente pode ser tratada. Mas, para não deixarmos sem resposta o sr. A. Mesquita, vamos traçar um pálido esboço do famigerado personagem que Guerra Junqueiro, num deplorável momento de esfuziante boémia, cantou em versos fesceninos.

Pedro Sebastião de Almeida Soriano, que era filho de Vicente José Soriano e de Francisca de Almeida Assis Soriano, nasceu em Santa Maria de Albufeira, comarca de Faro, em 1842. Com alguns estudos foi para a vida militar, onde teve o posto de sargento. Licenciado da tropa tornou-se logo famoso em todo o Algarve por capitanear a «Sociedade dos terríveis», grupo de mancebos estroinas que se divertiam em ceias pantagruélicas e cavalgadas ruidosas, praticando por vezes actos condenáveis que, volvido tempo, a lenda muito avolumou chegando a culpar a «Sociedade dos terríveis» como responsável pelo assassínio de dois jovens seus componentes: Lorjó Tavares e José Gomes,—o que não era exacto, pois o irmão de uma das vitimas declarou na imprensa, em 1885, que tais crimes se praticaram alguns anos depois de extinta a agremiação de tão péssima reminiscência...

Pedro Soriano foi uma espécie de irmão colaço de Barnabé Pinto Xavier: foram contemporâneos e gozaram a mesma fama de valentes perseguidores dos contrabandistas, no período em que exerceram as funções de fiscais graduados. Uma coisa, porém, os distinguia: o Barnabé era franco e generoso, valente como um leão e dócil como uma criança. Partiu muitas costelas, em refregas que não provocou, mas também praticou muitos actos de rara nobreza, e, por tal motivo, o genial poeta Guilherme Braga cantou-o em versos admiráveis.

Soriano era espertalhão, muito ousado e algo inteligente. Sendo empregado na administração do correio de Vila Real conseguiu ser transferido para o Porto. Nesta cidade se evidenciou com a publicação do semanário «Gazeta do Correio», periódico por ele fundado e redigido. Este jornal, que se destinava especialmente a pugnar pelos interesses do funcionalismo a que o seu proprietário e director pertencia, publicou-se regularmente desde 4 de Maio a 6 de Outubro de 1869. Em 1875 Pedro Soriano residia na Rua de Trás e era casado com uma senhora distintíssima, filha de um conceituado juiz de direito. Neste mesmo ano de 1875, a requisição das autoridades de Coimbra, Soriano foi preso por delito de ofensas corporais: prestou fiança e saiu em liberdade. Quando veio a ser julgado no Tribunal de Coimbra, em 15 de Março de 1876, foi absolvido. Dois dias antes do julgamento fez uma minuciosa exposição do caso em que estava incriminado, mandou-a imprimir em 4 páginas de grande formato, todas tarjadas de pesado luto pelo recente falecimento de sua esposa D. Joana Ribeiro, e distribuiu pelo júri vários exemplares.

Pedro Soriano, apesar das suas estroinices sentiu pungente dor com a morte da esposa. Ele era um espírito algo doentio, mas tinha a sensibilidade dos ultra-românticos; foi muitas vezes do Porto a Coimbra para passar a noite no cemitério junto à campa da esposa morta. Depois resolveu ir para o Algarve, sua terra natal. Foi lá que alcançou o lugar de chefe do 3.° corpo da fiscalização externa das alfândegas, mercê duma acção indigna, vivamente comentada como uma das páginas mais negras da sua vida: fez-se amigo de José das Redes, contrabandista famoso, homem destemido, «quase heróico e lendário» entre os povos do Algarve para o trair e entregar à justiça.

Em 1881 Pedro Soriano morava em Lisboa, na Travessa da Espera, e desde Outubro do citado ano viveu quase em comum com uma formosa rapariga, chamada Maria Eugénia dos Santos, natural do Porto e nascida no Hospital de Santo António, creio que em 1862. Maria Eugénia e sua mãe Luísa Francisca, de 56 anos, já viúva, foram de Viana para Lisboa em Março de 1881. Pedro Soriano, tipo de D. João, facilmente se insinuou no ânimo daquela «virgem de Murilo». Mas como a Maria Eugénia era de menor idade, Pedro Soriano quis, aparentemente, dar foros de seriedade à sua união ilegal. De combinação com a jovem e formosa amante resolveu aquietar a boçal Luísa Francisca com a criminosa «palhaçada» dum casamento simulado. Para tal fim precisava de uma capela e resolveu pedir ao marquês de Angeja que lhe cedesse por uma noite a que possuía no seu palácio, dizendo-lhe com toda a sem-cerimónia que era para uma simples «palhaçada». O marquês ponderou no acto sacrílego e pretextou desculpas, furtando-se à cedência. Soriano, porém, não desanimou; soube que havia um palácio devoluto na Praça de D. Pedro, que uma célebre judia por longo tempo ocupara e logo convenceu o porteiro a alugar-lho por uma noite no mesmo dia em que a israelita o abandonara. Convidou meia dúzia de amigos para assistirem à boda, um para fazer de padre, improvisaram uma capela que no dizer do próprio Soriano parecia o «púlpito de sermão do bacalhau» e a tal «palhaçada» do casamento efectuou-se na noite de 31 de Dezembro de 1881, seguindo-se-lhe uma lauta ceia que durou até pela manhã e custou ao noivo a boa importância de 80$00!...

Luísa Francisca ficou radiante e com muita prosápia dizia a toda a gente que sua filha casara com um cavalheiro que tinha galões, que ganhava quase uma libra por dia e que era primo de um visconde!

Poucos meses após o casamento Luísa Francisca regressava a Viana e Soriano e a esposa foram fixar residência no Entroncamento. Soriano, que desde longa data convivia com altas figuras militares, políticas e literárias, era, como já dissemos, muito atrevido e inteligente. Chegou a escrever romances engenhosos com cenas empolgantes por ele vividas, «dramas de efeito e situações bombásticas». E já a caminhar para os 50, parecia não amadurecer: fazia uma vida larga e sempre estroina; algumas vezes só, quase sempre acompanhado pela febril e formosa amante, frequentava os botequins mundanos e ceava nos restaurantes caros. Este viver desregrado fez, como era natural, da tímida rapariguinha, nascida no romântico Porto e criada nas poéticas margens do Lima, uma cocote de larga experiência. Começaram, pois, a surgir atritos neste par mal formado e a Maria Eugénia confiante na sua tão cobiçada formosura abandonou Pedro Soriano e seguiu para a capital disposta a enfrentar a vida... Mas Soriano que realmente gostava da amante foi logo no seu encalço e logrou convencê-la a regressar à abandonada residência. Alguns meses decorridos já Soriano estava plenamente convencido da infidelidade de Maria Eugénia que, apercebendo-se das suspeitas do amante e temendo-lhe o castigo, novamente fugiu sem que ele lhe pudesse seguir a pista. Pedro Soriano ficou raivoso, sedento de vingança... E crente de que ela também o traíra com o seu subordinado e impedido José Maria Gaspar das Neves espancou-o rijamente numa charneca de Torres Novas durante uma ceia com vários amigos na madrugada de 28 de Fevereiro de 1885. Soriano, depois de ter maltratado o pobre soldado que sempre negou firmemente as ciumentas acusações do seu chefe, apiedou-se dele: deu-lhe uma camisa para substituir a que ficara manchada de sangue e prometera-lhe que de futuro seria muito seu amigo. Este incidente sem importância de maior—e mesmo vulgar na vida de Soriano—teria passado despercebido se alguns inimigos do arrogante chefe fiscal se não aproveitassem deste caso para se vingarem do famigerado valentão—terror dos contrabandistas e destemido perseguidor de certos embusteiros que muitas vezes se dedicavam à exploração da ignorância indígena... Trataram, pois, de meter no hospital o rude guarda e propalaram que Soriano o quisera assassinar num lugar escuso para que depois tal crime fosse atribuído aos candongueiros que fugiam ao fisco; que o suposto assassinato fora praticado com requintes de malvadez e que o criminoso chegara, como os vampiros, a beber o sangue que jorrava da carne retalhada da sua vítima!... A Imprensa tomou por verídica a fantástica informação e divulgou-a imediatamente, assim como outras notícias que durante certo tempo recebeu, indicando Soriano como autor de vários crimes que ficaram impunes!...

Maria Eugénia havia-se recolhido em Lisboa em casa de uma prima, mas ao ter conhecimento da vilipendiosa campanha acintosamente movida contra o seu ex-amante também quis atirar-lhe uma pedra: acusou-o de seu sedutor e de a ter ludibriado com um casamento simulado.

Pedro Soriano foi logo suspenso das suas funções e foi-lhe instaurado um processo. Em 5 de Março de 1885 mandou ele para a Imprensa uma carta refutando as infâmias que lhe assacavam—mas já era tarde e por tal motivo não conseguiu abafar a onda de clamoroso ódio que contra ele rugia. Dois dias depois era encarcerado em Torres Novas e algumas semanas volvidas deu entrada no Limoeiro de onde passado certo tempo saiu sob fiança.

Maria Eugénia, que a opinião pública considerava uma mártir, veio para a cidade do Porto e deu entrada no Recolhimento do Bom Pastor; mas o seu temperamento não se coadunava à vida mística da clausura... e, a breve trecho, deixou em paz as boas religiosas do muito respeitado recolhimento portuense seguindo por caminhos que de ordinário trilham as ambulatrizes e as Madalenas impenitentes...

Pedro Soriano estava encarcerado no Limoeiro, assim como três dos seus amigos que quatro anos antes haviam assistido ao escandaloso «casamento» efectuado no 3.° andar do prédio n.º 116 da Praça de D. Pedro. A Imprensa, como já dissemos, durante algumas semanas ocupou-se largamente de Soriano, pintando-o com as mais negras tintas. Os laureados folhetinistas Alberto Braga e Visconde de Benalcanfor azorragaram-no nos jornais do Porto; e Sebastião Sanhudo, no periódico «O Sorvete», em 15 de Março de 1885, estampou na 1.ª página a efígie do sátiro!... Decorridos alguns meses o «caso» Soriano ia caindo no olvido e o seu protagonista andava em liberdade sob fiança, conseguindo protelar o julgamento que só veio a efectuar-se em 25 e 26 de Fevereiro de 1887. Os cúmplices de Pedro Soriano foram todos absolvidos:—um era oficial do exército e filho dum conceituado magistrado que foi ao tribunal tomar a sua defesa. Pedro Soriano foi condenado em 3 anos de degredo. Ficou indignado com o veredicto e apelou da sentença, continuando em liberdade. Vendo, porém, que todos os seus amigos estavam na «mó de baixo» e constando-lhe que a autoridade resolvera prendê-lo porque a lei não permitia que ficasse em liberdade um réu condenado a degredo, resolveu homiziar-se, seguindo para Espanha, em 1 de Março do já citado ano de 1887, comodamente instalado num vagão de 1.ª classe—aguardando no país vizinho a passagem dos seus amigos para a «mó de cima», ou a prescrição da pena a que fora condenado!...

A inesperada fuga de Pedro Soriano foi mais uma faceta do seu espírito aventureiro e voltou a excitar a opinião pública... Disseram-se coisas mirabolantes e fizeram-se as mais hipotéticas conjecturas:—afirmou-se mesmo que o antigo perseguidor de contrabandistas ia dedicar-se ao contrabando em larga escala!... Uma irmã de Soriano indignada com a insidiosa campanha mandou para os jornais da capital uma carta muito conceituosa e, até certo ponto, restabeleceu a verdade. Adelaide Conceição de Almeida Soriano Lages foi uma das poucas pessoas que tiveram coragem para defender um homem caído em desgraça...—«um homem de bem, honrado, valente e hábil, embora estroina».

Apesar de tudo não terminava o escândalo à volta do «caso Soriano»: a Associação dos Advogados reuniu e discutindo o procedimento do magistrado que julgou o autor do casamento simulado e mais crimes, responsabilizou-o por «erro de ofício». O juiz fora bastante severo na condenação de Soriano, mas o areópago de bacharéis não perdoava ao magistrado a «imprudência» de ter deixado em liberdade um réu que fora condenado a três anos de degredo. De tal protesto resultou que poucos dias depois, a Procuradoria Geral da Coroa decidisse que «por erro de ofício» fosse julgado o julgador de Soriano!...

*

Foi à mesa dum restaurante, frequentado pela alta boémia, que Guerra Junqueiro no fim de uma grande ceia com farta libação, a pedido dos convivas brindou Pedro Soriano em versos báquicos ali feitos de improviso. A leitura desses versos, mais obscenos que espirituosos, produziu no grupo jantante um prolongado e ruidoso gargalhar... Mas —coisa que o Poeta não supunha e disso muito se arrependeu—o estridor de tanto riso logo se repercutiu por toda a cidade resultando que tal «trapalhada» fosse a mais cobiçada obra de Guerra Junqueiro. Ainda em vida do Poeta e sem sua autorização, fizeram-se várias edições (quatro conhecemos nós) do pornográfico poema que hoje é muito raro e só de longe a longe aparece e por alto preço. Durante cinquenta anos Guerra Junqueiro inutilizou centenas de exemplares: pedia-os emprestados às pessoas que os possuíam e rasgava-os dando-lhes em troca outros livros valorizados com o seu autógrafo. O manuscrito original da Pátria, que existe na Biblioteca Municipal do Porto, parece que foi oferecido em 1915 a este importante estabelecimento cultural em troca do original de As Musas e outros folhetos de Junqueiro também obscenos. O Poeta esforçava-se por eliminar toda a «porcaria» que o seu belo espírito produzira em momentos de leviandade galhofeira. Nesse tentame gastou baldadamente centenas e centenas de escudos. Sempre que fosse vendida em leilão a livraria de qualquer bibliófilo Junqueiro procurava arrematar essas obras sempre disputadas e que tanto o incomodavam.

Para melhor testemunho do que vimos afirmando vamos dar nesta notícia um pequeno extracto duma carta inédita de Guerra Junqueiro, escrita da Barca de Alva há quase meio século, pedindo a um amigo para lhe adquirir um dos tais folhetos que ia ser vendido no leilão da livraria de um notável escritor portuense. Eis o inédito de Guerra Junqueiro que só daremos na íntegra num próximo trabalho:

«...Quando ele imprimiu essa porcaria mostrei-lhe o meu desgosto profundo e disse-lhe que queimasse imediatamente todos os exemplares o que julguei teria feito. Pelo que vejo não o fez, como lhe cumpria.

«Se o exemplar anunciado ainda não foi a leilão, peço o obséquio de mo mandar adquirir por todo o preço guardando-mo aí até à minha chegada ao Porto. Esses versos são apenas indecências filhas de algumas horas (quem as não teve) de boémia e de embriaguês».

Aqui fica um pálido esboço de Pedro Soriano—figura desde há muito tida como lendária, e, em nossos dias, quase por todos considerada puramente imaginária. Somos fervoroso admirador de Guerra Junqueiro e se nos custou aludir aos indecorosos versos—devidamente condenados pelo altíssimo Poeta—sentimo-nos consolado por, dentro da verdade, termos exaltado o belo carácter do sublime cantor da Musa em Férias e por honrarmos o «Jornal de Notícias» com um curioso inédito do imortal Poeta.

—Guilherme Vilar—Porto. (aliás, Alberto Moreira)