Entrevista

Marc Wilmet

Marc Wilmet é um conceituado linguista belga, professor da Universidade dewilmet2.jpg (3812 bytes) Bruxelas e autor de várias obras sobre a língua, de entre as quais se destaca a sua Gramática Crítica do Francês, que em 1998 recebeu o Prémio Logos da Associação Europeia de Linguistas e Professores de Línguas.

Em 1999, Marc Wilmet foi nomeado Presidente do Conselho Superior da Língua Francesa da Comunidade Valónia-Bruxelas (a parte francófona da Bélgica). Nessa qualidade, concedeu uma entrevista ao jornal Francité, aqui parcialmente reproduzida com o devido agradecimento à Maison de la Francité.

 A modernização da ortografia francesa

Daniel Laroche - Marc Wilmet, um certo número de campanhas recentes, nomeadamente sobre a simplificação da ortografia francesa e sobre a feminização dos nomes das profissões e dos cargos, pôs em evidência a questão da "reforma" do francês, da sua modernização. A julgar pela imprensa francesa, os mais tradicionalistas nem sempre são aqueles de que se está à espera...

Marc Wilmet - Essa resistência à mudança é mais ou menos característica do mundo francófono. Um fetichismo desses não seria possível da parte dos americanos, por exemplo. A sacralização da ortografia coincide com o início do ensino obrigatório. Um século antes, numa cena do Burguês Fidalgo, o Senhor Jourdain, sequioso de conhecimentos e tendo já afastado das suas preocupações a Lógica, a Física e a Moral, acaba por declarar: "Ensinem-me Ortografia !". No tempo de Molière, esta réplica fazia rir. Até Voltaire, a ortografia era um assunto de tipógrafos. Mas a partir do momento em que a Escola decide "ensinar a ler e a escrever a todos os pequenos franceses", de acordo com uma visão jacobina centralizadora, as grafias tornam-se fixas e nasce o problema ortográfico. Esse problema vai crescer ao longo dos anos, até se tornar numa "crise ortográfica".

DL - Nessa perspectiva histórica, como é que se devem interpretar as recentes tentativas de reforma?

MW - Apesar de toda a controvérsia, a verdade é que não passam de "reformazinhas". Ainda me lembro de ouvir André Goosse a acalmar os conservadores garantindo-lhes que "no fundo, só muda uma palavra em cada duas páginas". O problema é precisamente esse, não se resolve nada: uns acentos circumflexos, um trema aqui e ali, a supressão de letras dobradas... ou simples. As primeiras reações antagónicas vieram dos tipógrafos - que na sua maior parte até são de tradição anarquista ! - para quem a ortografia é uma espécie de couto privado. E depois viu-se um indivíduo como Jean Cau criar uma associação de nome vagamente racista: "Não toquem no meu francês !" Philippe de Saint-Robert escreveu-me a perguntar se eu aceitava participar nessa cruzada... Não, claro que não.

DL - E no entanto tem-se a impressão que muitos francófonos, de língua materna ou por adoção, deploram as complicações inúteis e os absurdos que tornam tão difícil dominar a língua.

MW - O que é terrível é que a ortografia só pode ser reformada pelas pessoas que a conhecem e que a possuem. Mas essas pessoas não têm interesse nisso, e algumas às vezes até o confessam despudoradamente. O meu velho amigo Raymond Trousson, quando eu lhe tentei extorquir uma assinatura para a necessária reforma ortográfica, replicou-me: "eu penei muito para a aprender, os outros que façam o mesmo !" Esta reacção não é rara. Afinal quem é favorável à reforma ? Meia dúzia de linguistas. (...) De toda esta agitação, sobrou na Bélgica a Associação para a Aplicação das Recomendações Ortográficas (APARO) e o facto de o ensino católico se ter pronunciado a favor das modificações.

DL - Não será já um princípio, que podemos esperar que se venha a desenvolver progressivamente ? O tempo muitas vezes permite que as ideias feitas evoluam.

MW - Nem sequer os partidários desta reforma têm consciência do que ela deveria ser, a um nível mais vasto: a "autorização" dada a cada um de escrever esta ou aquela palavra da forma que entender, desde que não prejudique a comunicação. Nenhum reformista está ainda pronto para isso. Aceitam a "simplificação" - e falta ainda entender-se sobre o alcance deste termo - mas para construir ao fim e ao cabo uma nova norma ! Há dias falei com a Michèle Lenoble-Pinson: ela tem horror ao digrafismo. Dizia-me ela: "durante algum tempo aceitam-se as duas grafias, e depois a verdade de ontem torna-se o erro de amanhã". Os "normativos" podem quando muito aceitar que uma palavra se pronuncie de duas maneiras diferentes, mas no domínio da escrita, do visual, não cedem um centímetro (salvo raras exceções, como "clé" e "clef", etc.).

DL - Está portanto pessimista neste domínio ?

MW - Era preciso que as mentalidades mudassem. Uma verdadeira reforma consistiria em proclamar: "no fundo, não tem assim tanta importância que se escreva "nénuphar" ou "nénufar"...". Mas o que contribui para manter o sentimento da importância da norma são os ditados, esses concursos de ortografia, isso é que me parece pernicioso. No número de Março da revista Francophonie vivante publiquei uma pequena nota intitulada "Vamos Festejar!" onde propunha como ditado de concurso uma diatribe de Ferdinand Brunot, que incluía trechos do género "a ortografia é o flagelo da escola" e "a ortografia prejudica as outras disciplinas", etc.

DL - E como é que reagiram os responsáveis da revista?

MW - Publicaram um pequeno comentário no cabeçalho do número seguinte, o de Junho. Depois reagiram da melhor maneira, de forma humorística, escolhendo como um dos ditados do campeonato um texto escrito por mim próprio, intitulado Os Técnicos da Língua. Muito divertido, claro, mas no fundo fica tudo na mesma. Para conseguir uma verdadeira evolução das mentalidades era preciso que as pessoas que têm problemas com a ortografia tivessem coragem de o confessar. Conheço algumas, mesmo nos meios universitários (não vou dizer quem são, ia ficar surpreendido, mas a revelação cabe-lhes a elas), que fazem dez erros por página. Desconhecer a ortografia não obsta a que se seja competente - e conhecê-la não impede que se seja um imbecil. Mas as pessoas que têm esses problemas, e que poderiam confessá-los, não o fazem por causa da pressão social - e além disso, como dispõem de secretárias e de corretores ortográficos, conseguem geralmente disfarçar as suas falhas.

DL - Mas será que é um fenómeno típico do francês?

MW - Sim, pelas razões já evocadas. E depois, o problema ortográfico quase não existe nas outras línguas românicas (à parte um ou outro acento). O espanhol e o italiano ainda estão muito próximos das grafias fonéticas do latim. Quanto ao inglês, é verdade que a ortografia é complicada, mas as pessoas estão-se nas tintas para ela ! Repare nas tabuletas, sobretudo nos Estados Unidos: "nite" em vez de "night", etc. Imagine que aqui alguém escrevia "le pri de la nwi". Seria um escândalo ! Trata-se portanto de um fenómeno simultaneamente histórico e cultural, e por conseguinte muito difícil de combater. (...)

DL - O que o incomoda, precisamente, é...

MW - É a confusão que se insiste em manter entre a ortografia e a língua. Como se ao mexer numa estivéssemos a mudar a outra. E depois há demasiada gente interessada em que a ortografia mantenha toda a sua complexidade: os autores de gramáticas normativas e de manuais, os professores de francês, os professores primários, que conseguem impor facilmente a calma nas aulas graças aos terríveis ditados. Além de que a ortografia lhes permite também nunca serem contestados. Um erro, um ponto: isto dá-lhes um prestígio quase comparável ao do professor de matemática. E os escritores também participam neste conluio quando investem uma palavra e a sua aparência visual de uma série de reações afetivas. Colette dizia: "aplaude-se melhor com dois pês". (...) Outro, já não sei quem, afirmava que o "nenúfar" escrito com "f" em vez de "ph" deixava de ser uma flor e passava a ser um legume...

DL - O peso da tradição neste domínio continua portanto a ser considerável...

MW - Repito mais uma vez: é preciso sobretudo fazer evoluir as mentalidades. E acreditar que um dia se há de chegar a uma situação idêntica à da caligrafia, a que hoje em dia ninguém liga, mas que outrora era disciplina eliminatória na escola primária. Os intelectuais, se estão convencidos disto devem dizê-lo, revoltar-se contra os saberes inúteis e pelos quais se paga um preço demasiado elevado, em detrimento da formação dos alunos. A disciplina de francês começa por ser quase exclusivamente uma cadeira de ortografia e depois torna-se numa cadeira de literatura e de cultura geral. E a língua no meio disto tudo?

DL - Está a ser duro com os professores: será que eles têm alternativa? Além dos programas, há o peso da sua formação, da sua própria educação.

MW - É verdade, estas coisas são-nos inculcadas desde miúdos. Mais tarde, tocar na ortografia é um bocado como insultar a própria mãe. Junta-se a isso uma certa nostalgia da infância - idade geralmente ditosa e mimada -, mais o cheiro do giz e da esponja húmida... enfim, os bons velhos tempos!

Os estrangeirismos


DL
- No que toca aos estrangeirismos e aos neologismos, a sua posição também é relativamente tolerante, ou pelo menos relaxada e nada purista?

MW - Sim, com efeito. O francês sempre foi buscar palavras a outras línguas, a todas as línguas: ao árabe, ao italiano, ao espanhol, ao holandês, ao alemão... E desde o século XIX ao inglês, e sem interrupção, que é o que torna o fenómeno mais visível. Inglês esse difundido pela cultura anglo-americana: indústria, desporto, ciência, técnica, vida quotidiana... Talvez aqui haja uma maneira de compensar este fenómeno: não deveríamos nós "dissimular" o estrangeirismo através da pronúncia? Ou seja, ao utilizar a palavra estrangeira, não nos esforçarmos por reproduzir a pronúncia original. Para começar, geralmente não a conhecemos. Será que para utilizar uma palavra russa como "apparatchik", ou "refuznik", etc. - não há muitas - precisamos de frequentar previamente um curso de fonética russa? Na prática, um respeito excessivo da pronúncia equivale a fazer espalhar lentamente o inglês no seio do francês. (...)

DL - Resumindo, não é caso para dramatizar!

MW - Tanto mais que muitos estrangeirismos desaparecem, tal como os outros neologismos, quando deixam de ser precisos. No fundo, o que me incomoda não é tanto o anglicismo, são as pessoas que usam e abusam dele. O senobismo do inglês (...) é um meio de se valorizar socialmente e de desconsiderar o interlocutor. Nas empresas, por exemplo, os quadros adotam de forma ostensiva o jargão anglo-americano. (...)

DL - Há estrangeirismos que são francamente inúteis e que, como referiu, são usados precisamente para criar um efeito de distância...

MW - Nos casos em que o estrangeirismo sobrevive, mesmo quando a priori era inútil, é frequentemente porque se lhe atribui um sentido diferente. Repare no termo "building": inicialmente significava "construção", agora passou a significar "arranha-céus". O enriquecimento da língua é real. Há outros estrangeirismos que são supérfluos do ponto de vista estritamente semântico, mas que adquirem uma conotação afetiva que permite manifestar a modernidade de quem o usa: "look", "crash"... O trunfo do inglês está em ser a língua "jovem". (...) Esta vitalidade e este lado atraente da cultura anglo-saxónica não são mais do que o reflexo do poderio económico e político. O problema não é puramente cultural.

DL - Resumindo, trata-se de um fenómeno superficial...

MW - Sim, precisamente. O que nós precisamos agora é de saber escarnecer. Era preciso ridicularizar os grandes consumidores de anglicismos, como Rabelais sabia fazer em relação aos pedantes e aos que abusavam do jargão escolástico. Numa conferência que dei aqui, na Maison de la Francité, citei o caso daquele homem de negócios consciencioso que tinha rebatizado uma cadeia de restaurantes em declínio como "Lunch Garden". É mais fácil do que mudar a comida, claro... (...) Resumindo, preconizo uma certa tolerância em relação aos anglicismos. Diria que continuam a incomodar-me a nível político, por aquilo que revelam, e também a nível estético.

O francês, uma língua demasiado complicada?


DL
- Outro tema que gostaria aqui de abordar é o da complexidade da língua. Ouve-se constantemente dizer, muitas vezes sem que se perceba bem do que é que se está a falar, que o francês é uma língua complicada. Que é uma língua complicada para os próprios francófonos - a ortografia é um exemplo - e, por maioria de razão, para os não-francófonos que a aprendem. Uma pessoa interroga-se, portanto, até que ponto o êxito do inglês não se ficará a dever ao facto de este ser considerado mais simples, nomeadamente no plano gramatical. Há quem diga também que o inglês é mais rico a nível lexical e que isso explicaria uma certa "menorização" do francês na cena internacional. O que é que se pode dizer sobre a complexidade de uma língua? Como é que será possível avaliá-la?

MW - Não me parece que o francês seja mais difícil do que qualquer outro idioma. Tem-se até a impressão que uma língua como o alemão é mais complexa... Mas confesso que não disponho de um instrumento de medida fiável. De qualquer forma, é extremamente difícil falar bem inglês. Portanto a diferença, se existe, reside na reação crítica dos francófonos, que é paralizante para eles próprios e para os outros. Esta atitude revela-se nas brincadeiras de caráter linguístico: troça-se de quem se desvia da norma (do belga em França, do provinciano em Paris, do parisiense na província, etc.). O desporto nacional francês é tentar descobrir, sem maldade, de onde vêm as pessoas.

DL - É quase uma espécie de culpabilização...

MW - É uma enorme pressão sobre os francófonos, e maior ainda sobre aqueles para quem o francês não é a língua materna. Mas também é verdade que as coisas estão a mudar. (...) Acresce que os falantes do francês se sentem sempre obrigados a atingir um certo grau de desempenho. Ainda vivemos com a ideia de um francês elitista. Nos grandes colóquios internacionais, os especialistas estrangeiros que ainda se arriscam a optar pelo francês - o que começa a ser raro - sentem-se sistematicamente obrigados a começar pedindo desculpa: "perdoem-me, mas não falo bem a vossa língua". Com o inglês nada disso acontece, as pessoas creolizam-no ou balbuciam-no à vontade.

A gramática


DL
- (Uma reflexão sobre a língua) é algo que não existe nos programas atuais?

MW - O paradoxo é que o ensino da gramática que se faz não serve para (quase) nada e que o ensino da gramática que poderia servir para alguma coisa... não se faz. Impede-se que os alunos mais crescidos se interessem minimamente pelo funcionamento da língua porque se faz o culto de uma gramática impressionista, aproximativa e tautológica (o artigo "definido" é aquele que "define" ou "determina" o substantivo, o adjetivo "qualificativo" descreve uma "qualidade" do substantivo, o "possessivo" indica a "posse" (...) ).

DL - Seria portanto necessário reorganizar a matéria em função da faixa etária dos alunos.

MW - Exatamente. Na minha Gramática Crítica do Francês resumi esse ponto de vista de forma lapidar: muito menos gramática no início dos estudos e muito mais gramática no final. Hoje em dia, os adolescentes estão tão fartos do catecismo gramatical - e os professores também - que se apressam a renunciar à reflexão linguística no momento em que noutros países se começa a abordá-la. As competências estagnam. Perde-se o gosto de "brincar" com a língua.

DL - A gramática deve estar em constante mutação?

MW - Em constante aperfeiçoamento, é esse o destino de qualquer ciência. Não se pode pedir a ninguém que ensine toda a verdade, mas podemos exigir a um professor que não ensine nada de falso. Mas a prática gramatical é desesperante. Não há nada mais conservador do que a gramática escolar, que, de um modo geral, não sofreu qualquer correção durante 200 anos, desde Lhomond (1780) a Grévisse (1980). Porquê? Sempre a mesma razão, a aprendizagem precoce, prematura. Os espíritos ficam marcados. Ao ponto de os meus alunos me confessarem: "Ouça, até acho que você tem razão, mas estamos tão habituados...". Mas as pessoas vão para a universidade para se libertarem dos maus hábitos, se for caso disso, e para adquirirem outros melhores. Se não for assim, é caso para perder todas as esperanças nos intelectuais!

DL - E além dos seus alunos, tem encontrado muita resistência?

MW - Sim, sim. Da parte de demasiados professores, que, detentores de um suposto saber, não aceitam de um modo geral pôr-se em causa. É forçoso reconhecer, no entanto, que já lhes apontaram tantas miragens e já lhes fizeram tantas promessas falaciosas, que se compreende a sua atitude relativamente desconfiada. Limitam-se a perpetuar o ensino dos seus antigos mestres, que por sua vez repetiam o ensino de outros mestres e por aí fora... Também é verdade que nunca se deu a estes professores o estatuto económico e social que os poderia incentivar a reciclar-se.
 

Quem tem competência em matéria de língua?


DL
- Falemos agora um pouco, se não se importa, da autoridade oficial em matéria de língua. Existe tal autoridade no domínio francês?

MW - O público pensa frequentemente que é a Academia Francesa que detém esse poder. Mas, do ponto de vista histórico e institucional, não é verdade. Na perspetiva que nos interessa, a Academia Francesa não passa de um clube de amadores, ainda por cima com dotes muito desiguais. A sua Gramática de 1932 era medíocre e o seu Dicionário está ultrapassado. Na realidade, a regulamentação cabe de pleno direito ao poder político, após consulta, esperemos, dos diferentes conselhos superiores da língua francesa por si nomeados. A regulamentação não do uso privado, note-se (seria impensável pôr um gramático de palmatória a vigiar cada um de nós por cima do ombro!), mas em matéria administrativa (...) ou no domínio escolar (as grafias que serão ou não sancionadas).