Entrevista

(Republicada nos «Cadernos do Centenário» de «O Primeiro de Janeiro», em 1968)

Carolina Michaëlis de Vasconcelos

     Nasceu em Berlim a 15 de Março de 1851 e morreu no Porto a 16 de Novembro de 1925. Professora e romanista ilustre, que aos problemas da língua portuguesa, especialmente no aspecto fonético e ortográfico, consagrou largos estudos, foi também grande estudiosa das letras portuguesas. Residente ainda na Alemanha, é na altura da polémica suscitada pela tradução do Fausto, de Goethe, que entra em contacto com alguns eruditos portugueses, entre os quais Teófilo Braga, Adolfo Coelho e Joaquim de Vasconcelos. Com este último viria a casar em 1876, fixando-se definitivamente em Portugal. Em 1916 é feita doutora honoris causa pela Universidade de Coimbra. Já desde 1911, porém, que era professora, nomeada por distinção, primeiro da Faculdade de Letras de Lisboa e depois da de Coimbra, onde rege cadeira, sem nunca abandonar a sua residência no Porto. Os artigos que publicamos nesta nossa antologia das colaborações e dos colaboradores célebres de «O Primeiro de Janeiro» foram suscitados pela ideia da reforma ortográfica que surgiu logo após a implantação da República. Como se trata de uma autoridade no assunto e a série de artigos então publicados pela grande romanista abordam os aspectos fundamentais da questão, entendemos que deviam figurar neste nosso Caderno do Centenário como um dos debates mais importantes travados à volta do problema.
A Ortografia Nacional (15, 16 e 17 de Março de 1911)
I - Existe ou não, ortografia portuguesa, oficial e uniforme?
     Em Portugal não há, nem houve nunca, ortografia oficial, uniforme. Só ortografias variadas, mais ou menos sensatamente regradas pelo costume e exemplo de bons autores, ou mais ou menos inçadas de erros, contradições, dislates, caprichos e idiossincrasias pessoais. Esse estado anormal foi tomando proporções de verdadeira calamidade nos últimos decénios do século passado; desde que romanistas que ex-ofício estudaram cientìficamente a literatura e a língua nacional - glotólogos, gramáticos, lexicógrafos, etimologistas como F. A. Coelho, J. Leite de Vasconcelos, o já falecido Vasconcelos Abreu, Aniceto dos Reis Gonçalves Viana, Júlio Moreira, Epifânio Dias, Cândido de Figueiredo - começaram a expurgar a escrita de defeitos inveterados, regularizando-a e simplificando-a pouco a pouco metòdicamente, processo que levou uns a adoptar algumas das emendas e inovações, rejeitando aquelas que menos lhes agradavam, e outros a complicar a sua, cada vez mais, por espírito de oposição ou tendências conservadoras, com exajeros pretensamente etimológicos. Houve e há escritores que na mesma estrofe de um poema, na mesma página de um romance nos apresentam formas híbridas e contraditórias, meio reformadas ou inteiramente reformadas, como mytho e rythmo; melancólico e eccho; aflito e fructo; próximo e proprio; sería e Maria; Quiz e mês; allucinante e captivante; outominal e insónia. Uma confusão magna!
 
II - Seria conveniente que a ortografia fosse oficialmente regularizada e simplificada?
     Conveniente e urgente, tanto do ponto de vista científico, como no estético, e, sobretudo, no pedagógico.

     Num país atrasadíssimo quanto à instrução e educação, em que quatro milhões estão à espera dos benefícios da luz espiritual, o que importa é facilitar o ensino da leitura e escrita; acabar com todas as complicações desnecessárias; eliminar todos os artifícios eruditos; abreviar a aprendizagem de sorte que os professores ganhem tempo para realmente fertilizarem as almas com noções sólidas de saber e as boas doutrinas cívicas da solidariedade social, do pacifismo e do altruísmo. Por que (será preciso lembrá-lo?) o ensino elementar da leitura escrita não é fim, mas apenas meio, indispensável para o desenvolvimento da faculdade de pensar, raciocinar, julgar, protestar, e emendar o que encontramos de imperfeito e obnóxio no nosso caminho: faculdades, sem as quais não pode haver verdadeira liberdade.

     Quanto aos estrangeiros, também lucrarão com reforma. A enfadonha anarquia ortográfica tornou até hoje pouco apetecido o estudo do português, já em si muito mais espinhoso do que o das outras línguas neo-latinas, por causa das subtilezas da sua pronúncia e da sua morfologia. De ciência certa sei, por quanto tempo a falta de regras seguras sobre recta pronúncia e escrita correcta, e a falta de boas edições de textos impediu por completo, ou embaraçou inùtilmente, a publicação de manuscritos importantes e de estudos, aliás notáveis, relativos à admirável língua de Camões.

     Com relação à estética e à ética, bastará perguntar, se a ordem, a disciplina é, ou não, mais bela do que a desordem e a anarquia? A coerência preferível à incoerência? A simplicidade superior a enfeites e arrebiques supérfluos? Se é verdade, ou não, que as deficiência gráficas do português lhe darão ares de inculto; em especial, se o compararmos com outras línguas? A ortografia francesa é incomparàvelmente mais complicada e mais defeituosa do que a portuguesa; mas pelo menos está (como a inglesa e a alemã) frisada com rigor; tem sistema pelo qual todos se regulam. A castelhana e a italiana, pelo contrário. - Os idiomas, portanto, que são mais ìntimamente aparentados com o português - possuem há mais de um século ortografias excelentes, simplificadas racionalmente pelas respectivas Academias.

     Equiparar a nossa a essas duas, seguindo mutatis mutandis os mesmos princípios que nelas deram óptimo resultado, regularizar e simplificar, baseando-nos na história cientìficamente estudada do vocabulário nacional - eis o que convém fazer.
 

III - Qual é a causa das anomalias da escrita portuguesa?
     Causadora das anomalias que deturpam a escrita portuguesa é (se abstrairmos das dificuldades resultantes da complicada fonologia da língua, com seus sons nasais, ditongos puros e nasais, cinco ee, quatro aa, três oo de valor ora aberto, ora fechado, ora reduzido) a tendência etimológica, erudita, artificial, conservadora - em oposição aberta à natural, popular e progressiva tendência fonética das verdadeiras ortografias, como transcrição dos sons realmente proferidos na pronúncia normal das classes cultas.

     Tentarei explicar em poucas palavras de onde provêm, històricamente.

     A principal fonte da língua portuguesa é o latim, como todos sabem. Não o latim literário. O latim vulgar, tal como pronunciavam no território lusitano já alijado de certas demasias atávicas ou aristocráticas. Os numerosíssimos vocábulos que constituíam o léxico primitivo dos Luso-Romanos passaram por evoluções sucessivas que, quanto à forma, as modificaram mais ou menos segundo as leis naturais, uma das quais é a do mínimo esforço. Sobrepostas a esta larga e espessa camada popular, que constitui a parte principal, verdadeiramente nacional e modelar da língua, há (além de vocábulos de origem germânica e arábica, etc.) diversas camadas de palavras, tiradas pouco a pouco por especialistas do léxico literário greco-latino, em pelo menos três épocas diversas: Idade Média, época do Renascimento, e tempos modernos. Termos técnicos, científicos, e termos poéticos altissonantes; mas também termos triviais; novos, em muitíssimos casos, e em outros casos idênticos aos que já existiam alterados no núcleo popular, p. ex. palácio ao par de paço; legítimo ao par de lídimo. Palavras divergentes, na terminologia dos romanistas.

     Nas palavras populares, herdadas de origem evolutiva, houve sempre e há em regra, ortografia fonética, quer elas se afastem sensìvelmente dos padrões originais, quer não se afastem nada ou quase nada em virtude da sua estrutura singela (rosa, casa; mês a mês). Escreve-se o que se profere, tão perfeita ou imperfeitamente como o admitem os vinte e cinco caracteres do alfabeto também herdado.

     Nos primeiros monumentos artísticos da literatura - nas cantigas de amor e de escarnho dos trovadores (de 1200 a 1350) em que mal há vocábulos eruditos (apenas alguns provençalismos e galeguismos) não há, por isso mesmo (no códice membranacio da Ajuda) senão grafias fonéticas como ome, oge, aver, sono, dano, santo, pronto, meter, falar, calar, nacer, crecer, decer. Quanto a u medial há todavia oscilações; provàvelmente por haver oscilações na pronúncia.

     Das palavras eruditas, extraídas do dicionário latino e do helénico, não alteradas na boca do vulgo quanto ao sentido, nem quanto à forma, ou apenas levemente aportuguesadas, de índole conservativa, essas entraram, quase estacionárias, com todas as letras dos originais na prosa de notários, eclesiásticos, arqueólogos, historiadores e especialistas (do tempo de D. Dinis em diante), e também nos versos dos poetas áulicos do século XV. Mesmo com letras que em Portugal nunca tiveram função primitivamente sua, e com grupos de letras que não se encontram em dicções herdadas, a não ser abusivamente. Nelas é que figuram os sinais exóticos yy th ph rh gh; muitos hh; os grupos mn gm gn ct pt güe gëe; pp bb gg cq, e outras consoantes dobradas, supérfluas. Mesmo em bastantes das que desceram ao domínio do vulgo, sendo assimiladas às de feições populares na pronúncia (p. ex. pela eliminação de c antes de consoante e ensurdecimento das vogais átonas), a grafia conservou-se inalterada, p. ex. em víctima, victória, tractar, práctica, satisfação.

     A par desses termos, de introdução artificial mas antiga, há muitos outros mais modernos, de significado mais erudito, em que p. ex. a pronúncia alfabética dos grupos de consoantes, não toleradas no património verdadeiramente nacional, se tornou facultativa, v. g. em significado, consignar, diccionário, occidente, espectáculo, respectivo, técnica, facto, secção, equidade, equivaler, bilingue. E finalmente há uma camada de vocábulos, de introdução recente e sentido científico tão restrito que nunca serão familiares à maioria dos que falam, em que por hora é praxe geral proferir todas as letras, consoantes e vogais, com os seus valores alfabéticos: aerhemotoxia, glyptognosia, etc. etc.

     Pois bem: o costume de encontrar símbolos exóticos (ph rh y) e letras supérfluas em dicções relativas a ciências e artes, empregadas de preferência pelos mais ilustres da nação, levou todos quantos tinham pretensões de cultos - e onde está escritor que as não tenha? - não só a conservar cuidadosamente esses vestígios de origens nobres, mas também a reintroduzir símbolos exóticos e letras supérfluas em dições vulgares, de onde sempre estiveram banidos, durante séculos de vida literária. P. ex. em somno, damno; signal, dicto, fructo; escripto; sancto, pronpto, poncto; descer; nascer; sysne, lagryma; golphinho; exgottar; exforço; sexto; extrangeiro; crescer, nascer; sciente.

     Em algumas palavras alteraram mesmo a pronúncia, segundo o tipo latino; ora sensatamente como em menos, menor, feno, pena (em vez de mêos, mêor, fêo, pêa), magno (para evitar confusão com mano), ora inùtilmente como em digno.

     Por falsa analogia letras mudas entraram mesmo em palavras onde elas não têm razão alguma de figurar, v. g. em thesoura (por causa de thesouro?), ensignar (por causa do alatinado signal); occeano, como se tivesse relações de parentesco com occaso, occidente, eivando-se assim a parte vernácula do idioma com formas fantasiosas, como theudo, mauthendo, Santhiago e a parte alatinada e helenizada com barbarismos, como ethymologia, lythographia, photografia, physyognomia, philosophia; philharmonica, dymnastia, dymnastica (por causa de gymnastica).

     Caturrices como cognoscer por conhecer, quomo por como, ochlos por olhos, hacte por até, ipso por isso - obras do benemérito antiquário André de Resende - não vingaram felizmente. Não tão pouco a proposta de se substituir é aberto por æ!

     Tudo isso - repito - com o pretexto de conservar vestígios visíveis de ilustres prosápias, ou conforme é uso dizer «para sugerir etimologias». Por mera ostentação, por pedantismo, por espírito de reacção; ou em virtude da preocupação mórbida que a queda de um h, a substituição de um y por i possa dissimular a origem de uma palavra!

     Como se um escasso milhão de portugueses que lê e escreve fosse capaz de analisar, interpretar e historiar as evoluções e origens de homem, hoje, hontem (!), bocca, melhor do que as de ora, onra, falar, filosofia.

     Quanto a erros e irregularidades provêem em grande parte, evidentemente, da pouca sabedoria filológica dos próprios autores, que não tinham (até há muito pouco) meios de se informar ràpidamente. Em parte da ignorância dos escribas. Os medievais estavam costumados a transladar e redigir documentos em latim bárbaro; e os do tempo dos humanistas a copiar epístolas cesaronianas, poemas vergilianos, em estilo clássico.

     Depois da invensão civilizadora de Guttenberg muitos arcaísmos e pedantismos provieram da intervenção de oficiais de tipografias e de correctores, que julgando-se habilitados, não podendo alterar a bel prazer o estilo dos textos que compunham e corrigiam, lhes retocavam pelo menos a ortografia. Nem sempre exemplar, já o disse, e piamente o creio.

     Nem todas as imprensas dispunham de artistas habilitados, e os preceitos da Mesa Censória não permitiam (salvo erro) que o próprio autor lesse provas e alterasse os dizeres de manuscritos aprovados.

     Lembro que logo nos alvores da arte de imprimir, o conde de Alcoutim advertia o impressor Valentim de Morávia que as obras saídas dos seus prelos seriam melhores se não confiasse tanto nos seus oficiais - sentença que confirmará quem leu na edição príncipe a História de Vespasiano ou qualquer outra das obras, que devemos a esse impressor.

     Quanto à introdução de vocábulos correctamente alatinados e helenizados, tenho-a, em si, em conta de obra meritória; obra de poetas e escritores exímios, impulsionados pelo louvável empenho de enriquecer e enobrecer a língua e altear o nível da cultura pátria com elementos da civilização da Antiguidade. Só Luís de Camões contribuiu com mais de um cento. Com respeito à grafia, lamento, isso, sim, que não se resolvessem logo, decididamente, a tirar aos neologismos que patrocinavam as caudas roçagantes e enfeitos excessivos, assemelhando-os, o mais possível, aos vocábulos antigos, verdadeiramente nacionais. Ainda assim, não vou tão longe como Gonçalves Viana que condena em absoluto as grafias eruditas deles como mera superstição e mero alarde de cultismo, porque me lembro de que ocupando um lugar à parte na economia da linguagem, não era de estranhar que lho quisessem dar também quanto à escrita. E compreender equivale a perdoar, também no campo filológico. De mais a mais sei que houve, da parte dos quinhentistas escritores e impressores, numerosas tentativas de nacionalizar os latinismos e grecismos. Nas duas edições primeiras de «Os Lusíadas» (de 1572) temos p. ex. hemispherio, emipherio, emisperio e emisferio; nymphas, nimphas, nimfas e ninfas; phantasia e fantasia (com fantesca); estilo, estillo e estilo; e de mistura com despautérios como occeano, formas bem aportuguesadas como linfa, vítima, diáfano, sulfúreo, grandíloco.

     Hesitavam.

     Os pósteros é que deveriam ter escolhido e entronizado as grafias mais sensatas, como fizeram em Espanha e na Itália.

     Como ainda não o fizeram, façámo-lo nós. - Mais vale tarde do que nunca.
 

IV - A quem compete reformar a ortografia?
     Evidentemente aos profissionais que se ocupam cientìficamente das línguas, sobretudo das neolatinas, e em especial do idioma pátrio, quer pertençam à Academia, quer não. Particularmente, a quem, sem se descuidar de investigações históricas e etimológicas estudou a fundo a ortoépia (nome técnico grego, da recta pronúncia) e fonologia portuguesa, e deu as provas de que é mestre nesse ramo, em valiosos trabalhos que já frutificaram lá fora. Aniceto dos Reis Gonçalves Viana, que é consultado como autoridade por todos os especialistas, e citado com altos louvores (1). Já o expus a V. neste meu gabinete, onde, indignada por ele ser tão pouco conhecido dentro do País, em especial no Norte, lhe mostrei os livros principais com que, de 1833 em diante, ele brindou os estudiosos. Aqui restringir-me-ei naturalmente aos que dizem respeito directamente à questão ortográfica, excluindo os dialectológicos e etimológicos (2).

     Só depois de haver fixado com rigor e argúcia, e exposto minuciosamente a pronúncia normal das classes educadas (tocando de passagem em corruptelas vulgares) em opúsculos eruditos, acolhidos com aplausos e gratidão pelos entendedores (3) tratou de lançar as Bases da Ortografia Portuguesa (1885) (4) no mesmo ano, portanto, em que Cândido de Figueiredo, outro amador da sua terra, da sua gente e da sua língua, sem ser filólogo encartado, propunha à Academia de Ciências, encarregasse uma comissão da reforma (ou revisão) da ortografia, antes que se começasse o famigerado Dicionário (in-spe), de que era director Latino Coelho.

     De balde. Ninguém fez caso do opúsculo (14 pág.).

     Sem desanimar, Gonçalves Viana, que logo fizera tentativas de propaganda prática, imprimindo o Werther de Goethe na nova ortografia (5), ampliou e aperfeiçoou o trabalho inicial elaborando um Questionário (de 115 parágrafos), a fim de facilitar a discussão e decisão académicas (1900) (6).

     Sem resultado.

     Em seguida, publicou com o título de Ortografias Portuguesas (1902) as suas próprias respostas que equivalem a uma análise complexa das anomalias da escrita usual e dos meios de lhes obstar.

     Novamente sem agitar a mole.

     Alargando então a parte histórica deu-lhe, ao cabo de dois anos, forma muito mais desenvolvida e documentada, num volume de 454 páginas, ortografadas segundo os princípios expostos: Ortografia Nacional. Simplificação e unificação sistemática das Ortografias Portuguesas (1904). (7)

     Desde então, algumas vozes começaram a responder-lhe. Vários escritores e alguns periódicos puseram em prática as correcções e as simplificações principais por ele defendidas - abstendo-se, todavia, das que julgaram inoportunas ou dispensáveis, ou ultrapassando ainda as suas propostas. Além disso, houve adesões parciais só a essa ou aqueloutra medida: um escritor suprimia apóstrofos e temas, outro as consoantes geminadas, outro os yy, outro th ph, etc., etc.; muitos aceitaram a acentuação gráfica, embora sem rigor.

     De além-mar é que vieram há pouco os ecos mais fortes - em grande parte concordantes; discordantes em pormenores de peso - ecos que merecem séria atenção, porque importa naturalmente que não se verifique o cisma ortográfico, de que estamos ameaçados, chegando-se, pelo contrário, sem tardança a um acordo. Importa que Portugal e o Brasil realizem simultâneamente e de modo idêntico a reforma planeada, escrevendo de aqui em diante da mesma maneira, racionalmente simplificada, todos os vocábulos da sua língua comum (8), apesar do timbre diverso com que cá e lá se pronunciam as vogais tónicas e as átonas.

     O caso é este. Em Abril de 1907 foi apresentado à jovem Academia Brasileira de Letras o plano de uma ampla remodelação ortográfica (9), plano que logo foi alterado num anteprojecto substitutivo (10). Ambos foram discutidos calorosamente em sessões consecutivas, sendo finalmente aprovado o inicial e adoptado sem grande demora nas publicações da douta corporação. Com surpreendente rapidez (11).

     Nos seus lineamentos gerais a nova ortografia coincide com a de Gonçalves Viana. Afasta-se, todavia, em diversos pontos, entre os quais os mais importantes são a acentuação gráfica, moderada, a regularização dos vocábulos eruditos que contenham cc ct pt, e, sobretudo, a substituição de s intervocálico (Brasil rosa casa) e s final de vocábulos agudos (quis pôs após atrás português) por z. Os dois pontos primeiros admitem discussão. A última medida, contudo, recomendável apenas no ponto de vista prático (já empregada, de resto, pelos escritores do século XVIII, que ainda têm numerosos imitadores) é inaceitável do ponto de vista científico (histórico e etimológico).

     Urge, portanto, que em discussão serena, conquanto enérgica, se dirima esta contenda entre os reformadores de Portugal e os do Brasil, podendo ser por mútua condescendência. Se cá cedessem quanto aos dois primeiros pontos, deviam conseguir que lá, criteriosamente, se conformassem com relação ao s, aplaudidos de todo o mundo científico.

     José Veríssimo, João Ribeiro, Medeiros e Albuquerque devem convencer-se de que, atendendo sempre às exigências práticas da grande massa que importa instruir e educar, nem por isso devem desatender em caso algum a unidade e continuidade do idioma comum, como veículo literário. Todas as simplificações e regularizações devem assentar na base sólida de factos históricos, evoluções reais, origens verdadeiras. Eliminando-se tudo quanto é erróneo e supérfluo, conservar-se-ão todos os distintivos que expliquem estádios antigos da língua, muita vez perpetuados em arcaísmos dialectais. A ortografia simplificada há-de servir não só para obras modernas de ambas as nações, mas também para a vulgarização de quanto há de belo, de útil e de bom na Literatura antiga. S e z como ss e ç foram outrora em toda a Península símbolos de sons diversos e ainda o são hoje em algumas províncias, sobretudo na de Trás-os-Montes (sem falar do reino vizinho). É, pois, de boa lei mantermos a diferenciação e não confundir formas que, tendo origens diversas, têm também significados diversos; como paço e passo; poço e posso; coser e cozer. Alterações arbitrárias, não fundadas em factos linguísticos, afastariam o português, sem proveito da tradição sete vezes secular, das línguas irmãs, e provocariam necessàriamente críticas azedas, como em tempos aconteceu aos radicalismos exagerados da Ortografia Sónica de Barbosa Leão (1878), que não vingou por causa desse e doutros defeitos.

     A campanha elucidativa e conciliadora foi imediatamente começada. Gonçalves Viana continuou nos trabalhos preparatórios da reforma com um Vocabulário Ortográfico e Ortoépico da Língua Portuguesa (1910), (943 pág.), e na Advertência Preliminar em que resume as leis fundamentais da reforma, combate com argumentos decisivos as objecções dos Brasileiros - Advertência que, segundo se diz, foi publicada em separata. Actualmente trabalha em outro Vocabulário Brasileiro-Português; e nele há-de instar, sem dúvida, de novo, na necessidade de uma acção lògicamente combinada das duas nações, para que se vença em toda a linha.

     Cândido de Figueiredo, por sua vez, que igualmente combate de 1885 em diante, conforme já deixei dito, a favor de simplificações dentro do actual sistema misto, fazendo no seu Consultório Prático de Enfermidades da Língua propaganda activíssima (12), adiantou-se mesmo a Gonçalves Viana com um volume interessante, intitulado (2º vol.) Ortografia do Brasil (1908) que seguramente há-de contribuir a harmonizar as opiniões.
 

V - Há quanto tempo é que me ocupo de problemas ortográficos?
     Como ao espírito disciplinado de prussianos e prussianas repugnem naturalmente todas as incoerências, desordens e caprichos ilógicos, sofri com as contradições e incertezas na maneira de ortografar dos Portugueses, e com a falta de livros que me ensinassem a recta pronúncia, desde que comecei a aprender a língua de Camões, autodidàcticamente; sobretudo desde que para exercitar-me corrijo provas das obras de Herculano, Júlio Dinis, Gonçalves Dias, Camões, publicadas na Colecção de Autores Portugueses de Brockhaus, tendo ao mesmo tempo de traduzir documentos modernos e antigos como intérprete ajuramentado nos Tribunais e Ministérios de Berlim. E sofri mais quando principiei a escrever português e a editar textos vernáculos.

     Convencida de que uma reforma simplificadora, em sentido fonético como a do país vizinho e da Itália, havia de realizar-se mais cedo ou mais tarde, esforcei-me a purificar pouco a pouco a minha escrita, de erros e incongruências, elucidando também em pesquisas etimológicas as origens e a história de bastantes termos mal explicados até então, v. g. sossegar, assaimar, pintassilgo.

     Declaradamente tratei de assuntos ortográficos de passagem, em artigos relativos à nunca assás louvada Cartilha Maternal de João de Deus; na Introdução (infantil) que precede as Poesias do primeiro poeta clássico da nação, o homem de alto e heróico entendimento, que se chamava Sá de Miranda. Passei a empregar a grafia simplificada de Gonçalves Viana - não sem hesitações diversas - no Prólogo do Vol. I do Cancioneiro da Ajuda (1904); no Ensaio com que ilustrei a minha edição de Os Lusíadas; no Preâmbulo das Cem Melhores Poesias de Poetas Portugueses (Mortos) (1910). Confessarei agora que ainda não imprimi as Cem Melhores Poesias de Poetas Vivos, por não haver solicitado, previdente, na circular que distribuí, licença para regularizar de leve as ortografias variadas de Guerra Junqueiro, Afonso Lopes Vieira, António Correia de Oliveira, e os restantes deuses menores. De leve, já se vê, tirando-lhes apenas erros inveterados, como português, n'um, amá-lo, etc.! e em tudo o mais que publiquei posteriormente.

     Do propósito de escrever a história documentada das ortografias portuguesas, de a acompanhar de um plano de reforma, desisti logo que vi surgir Gonçalves Viana na arena, armado de pied en cap, propugnador de ideias que julguei aptas para nos valerem na guerra santa contra a praga do analfabetismo.
 

VI - Qual a forma de ortografia que eu prefiro? A «sónica» ou a «etimológica»?
VII - Deverá repudiar-se em absoluto a etimológica?
     Do que deixei dito e das grafias que emprego aqui, bem se vê que a que prefiro e defendo não é a sua erudita, que é costume só até certo ponto justificado chamar etimológica, corrigida dos erros que usualmente a desfiguram. Nem é, de modo algum, a sónica, no sentido que Barbosa Leão deu a este qualificativo na sua malograda tentativa, pondo o arbítrio pessoal acima dos factos históricos e deturpando as feições tradicionais do idioma com radicalismos exagerados, a ponto de escrever noça eçe açim Xina.

     A que emprego é a tradicional, regularizada e simplificada segundo normas e princípios fixos, fundados na história da língua, estudada com critério, por mim pessoalmente, e pelos ilustres sábios que nomeei. É, mais uma vez o declaro, a de Gonçalves Viana; isto é, a tradicional livre de elementos etimológicos inúteis, quer sejam mero disfarce (como y th ph rh, etc.), quer sejam nulos, mudos, mortos. Mas só destes. Tudo quanto se justifica à face da Ciência, tudo quanto está vivo, e de acordo com a pronúncia normal da sociedade culta, e mesmo tudo quanto só evolucionou com relação ao timbre, conservamo-lo a fim de não desformarmos nem interrompermos a unidade e continuidade de sete séculos de vida literária; ou por outra, para vindicarmos para o idioma de Camões o lugar honroso que lhe pertence, ao lado das línguas irmãs.

     Transcrições como rosa Brasil não são melhores do que noça eçe e dar-lhe-iam feições de dialecto inculto. Nunca poderemos ir tão longe como os Galizianos, que procedem com soberana liberdade a respeito de neologismo. As raras reformas das ortografias têm valido e valem às línguas de barreira impeditiva contra tendências revolucionárias, destinadas a introduzir na escrita as mais leves evoluções fonéticas.
 

VIII - A adopção da forma sónica é aconselhada, ou não, pelo estudo das fontes vernáculas da língua?
     Ponhamos: a adopção da ortografia simplificada, pois este é o nome que teremos de lhe dar. Eu ia responder que as fontes mais vernáculas da língua são os próprios vocábulos, estudados nas suas origens e nas evoluções por que passaram; os vocábulos realmente nacionais, de origem popular, que tiveram sempre, segundo estabeleci, a ortografia fonética, desde D. Sancho I, não a tendo hoje em alguns casos, por aberração. Mas como V. tem na mente, com certeza, obras-primas da literatura (do século áureo e do ressurgimento de 1820), repletas de vozes eruditas com a sua apregoada ortografia greco-latina, responderei completando o que indiquei nos capítulos anteriores.

     Não há autor algum, clássico ou neoclássico, que nos possa servir de modelo quanto a questões ortográficas. Nem mesmo engenhos previlegiados como Luís de Camões, Herculano e Almeida Garrett, porque eram leigos no assunto. Se acertaram em muitos pontos, desacertaram em outros. Acresce que do autor de Os Lusíadas nem sempre possuímos autógrafo algum. Nas poucas poesias impressas em sua vida, incluindo a epopeia (da qual a meu ver não leu as provas), há oscilações constantes entre a escrita fonética e a erudita (já dei exemplos). As mesmas oscilações, que caracterizam, em geral, os impressos da época do Renascimento, encontro-as, embora em muito menor escala, num precioso autógrafo de Sá de Miranda, descoberto há pouco na Biblioteca Nacional. As poesias nele contidas sairão breve, com um estudo meu no Boletim da 2ª classe da Academia das Ciências. Sóbrio, disciplinado e reflectido em todos os seus actos, o poeta emprega nele grafias muito superiores às desordenadas que lhe são atribuídas nas impressões de 1595 e 1614, e nos apógrafos que tive o gosto de utilizar; mais coerentes, mais singelas, mais próximas da fonética (13). Sem ser modelar, todavia.

     Isto confirma o que já apontei; a influência nefasta exercida pelos copistas e pelos compositores das tipografias, culpados (com alguns antiquários ferrenhos) na corrente reaccionária, nìmiamente conservadora da ortografia.

     Modelares eram apenas (em teoria, porque na prática dependiam também dos impressores) (14) os profissionais de então, João de Barros e Fernão de Oliveira, os primeiros que se ocuparam de problemas ortográficos. Ouçam como o historiador define a ortografia: como «ciência de escrever direitamente todas as dicções, com tantas letras (ele dizia leteras) com quantas as pronunciamos, sem pôr consoantes ociosas. Mesmo dado que a dicção seja latina, logo que a derivamos a nós e ela perder a sua pureza, logo a devemos escrever ao mesmo modo» (15).

     Fernão de Oliveira, por sua vez, havia decretado pouco antes a mesma regra: «aAs dicções que trazemos doutras línguas, escrevê-las-emos com as nossas letras que nelas soam, como ditongo, filósofo, gramática, porque tudo o mais é impedimento aos que não sabem essas línguas donde elas vieram». (16)

     Com relação ao mais antigo manuscrito artístico que possuímos repito que (apesar dos senões da escrita gótica, na qual ainda não distinguiam entre i e j, v e u e utilizavam numerosíssimas abreviaturas) a sua ortografia é decididamente fonética. Mas, por estar isenta de palavras doutas, não pode servir de guia e modela (17).

     Bem examinadas e avaliadas, as fontes vernáculas aconselham a reforma simplificadora e uniformizadora. Umas, directamente; as outras, pela caótica anarquia que nelas reina.
 

Notas

     (1) - Pode-se dizer que ele foi de 1833 em diante e é ainda colaborador de todos os romanistas estrangeiros que se ocupam do novo idioma: do exímio Jules Cornu (outrora de Prag, hoje de Graz), autor da primeira fonologia portuguesa destinada aos discípulos de Diez; seu continuador Gustavo Rolin, que acaba de publicar no Archiv (CXXV pág. 373), um estudo minucioso sobre a pronúncia das átonas em português; e a benemérita lusófila D. Luísa Ey, cujo Dicionário Manual (Taschenwörterbuch Berlin 1904) e cujas Gramáticas de Conversação (Heidelberg 1908 e 1910), serão em breve completadas por outra epistolar (Unterrichts-Briefe), segundo o sistema Langenscheidt.
     (2) - Ainda assim mencionarei as: Apostilas aos Dicionários Portugueses (1906) e Palestras Filológicas (1910).
     (3) - 1883 Essai de Phonétique et de Phonologie de la Langue Portugaise (Paris)
            1892
Exposição da Pronúncia Normal Portuguesa (Lisboa)
            1903
Portugais, phonologie, morphologie, textes (Leipzig)
     (4) - Auxiliado por Guilherme de Vasconcelos Abreu.
     (5) - Vasconcelos Abreu imprimia pela sua parte um estudo a respeito da Literatura e Religião dos Árias na Índia (Lisboa, Aillaud & C.ª).
     (6) - Com o mesmo fim redigiu ainda outro tratado: Bases da Transcrição Portuguesa de Nomes Estrangeiros (1900), que não foi exposto ao público.
     (7) - No meio tempo saíra em Coimbra um opúsculo importante, de A. J. Gonçalves Guimarães: Algumas Reflexões sobre a Ortografia Portuguesa (1903), no qual há ideias muito sensatas, em harmonia com as ideias de Gonçalves Viana. Creio, todavia, que ele vai longe de mais. Por ex., a proposta de distinguir com novos sinais convencionais, diacríticos, subpostos aos diversos aa, oo, ee, do português não encontrou, nem encontrará, a meu ver, mais amigos do que a acentuação gráfica (com agudos, circunflexos e graves).
     (8) - Com exclusão talvez do famoso si brasileiro? Se não o quiserem proscrever heròicamente.
     (9) - O projecto é assinado. Medeiros e Albuquerque, personagem que (claro) tinha atrás de si um grupo pequeno, mas valente de partidários que depois o secundaram.
     (10) - Este anteprojecto é de Rui Barbosa, Salvador de Mendonça e Sílvio Romero.
     (11) - Os dois projectos, assim como discursos de João Ribeiro, José Veríssimo e outros, assim como as resoluções da Academia e mais documentos, publicados primeiro em jornais fluminenses, já saíram na Revista da Academia Brasileira (com z! hélas!) de Letras (1911, pág. 77 a 133).
     (12) - Nas centenas de artigos soltos, subordinados no Diário de Notícias à epígrafe Falar e Escrever, e que posteriormente costuma publicar em volume, há muitos que se referem a problemas ortográficos e sua solução. Vejam: Lições Práticas Falar e Escrever (3º vol.) - Problemas de Linguagem.
     Resumindo: a reforma compete aos profissionais que estudaram a língua històricamente. Em particular, a Gonçalves Viana, autoridade reconhecida dentro e fora do País, e que já lançou as suas bases e ergueu o edifício, ao qual só falta a coroa do reconhecimento geral; em segundo lugar, a Cândido de Figueiredo como vulgarizador excelente; e para dirimir contendas segundo as exigências pedagógicas, ao eminente educador F. A. Coelho.
     Leite de Vasconcelos e eu, se não quiserem dispensar os nossos serviços, contribuiremos (penso eu) fixando a etimologia e traçando a história de vocábulos obscuros.
     (13) - A das poesias castelhanas é excelente por causa da singeleza fonética do idioma.
     (14) - Claro que também erraram por sua própria conta nos seus estudos de língua pátria.
     (15) - Ele exemplifica com ortografia. Mas o impressor claro que pôs ortographia, e pouco depois orthographia. (NB na edição de 1785, que consultei, é todavia possível que na de 1540 fizessem o mesmo).
     (16) - Claro que também ensinava a inutilidade de letras dobradas: «duas letras de uma mesma natureza em uma sílaba, juntas ambas em uma parte não são necessárias na nossa língua»; e exemplifica com officio e peccado.
     (17) - As mais antigas novelas - a Demanda do Graal e o Josep ab Ariamatia parece que se cingiram à ortografia dos trovadores. Nos parágrafos dos séculos XV e XVI, que substituem, há, todavia, muitas modernizações morfológicas e ortográficas. Do Vespasino, impresso em 1496, vale a mesma observação.