Citações

Estrangeirismos
Evolução da língua Ortografia
Língua e poder Provérbios
Multilinguismo Purismo
Neologia Variedades

 

Estrangeirismos

O estrangeirismo é um fenómeno natural, que revela a existência de uma certa mentalidade comum. Os povos que dependem económica e intelectualmente de outros não podem deixar de adoptar, com os produtos e ideias vindas de fora, certas formas de linguagem que lhe não são próprias. O ponto está em não permitir abusos e limitar essa importação linguística ao razoável e necessário. Contido nestes limites, o estrangeirismo tem vantagens: aumenta o poder expressivo das línguas, esbate a diferença dos idiomas, tornando-os mais compreensivos, e facilita, por isso mesmo, a comunicação das ideias gerais. Uma coisa é necessária, quando o estrangeirismo assentou já raízes na língua nacional: vesti-lo à portuguesa.

Manuel Rodrigues Lapa, Estilística da Língua Portuguesa

"Verba sequuntur rem" (as palavras seguem a coisa)

Horácio?

Na realidade, o problema do empréstimo lingüístico não se resolve com atitudes reacionárias, com estabelecer barreiras ou cordões de isolamento à entrada de palavras e expressões de outros idiomas. Resolve-se com o dinamismo cultural, com o gênio inventivo do povo. Povo que não forja cultura dispensa-se de criar palavras com energia irradiadora e tem de conformar-se, queiram ou não queiram os seus gramáticos, à condição de mero usuário de criações alheias.

Cunha (1981)

Evolução da língua

Outra tal [impropriedade] foi a corrupção da palavra puta que, sendo vocábulo honestíssimo, que quer dizer moça puríssima e limpa, por encobrir a fealdade do vocábulo de meretriz ou outro tão feio, vieram a infamar aquele nome, chamando puta a mulher que está posta ao ganho e putaria o lugar onde ganha.

Duarte Nunes de Leão
(Origem da Língua Portuguesa, 1606)

Claro que este [processo de evolução da língua] não é um processo pacífico. A tal luta de classes. O ignorante tende para a evolução (melhor: é a vanguarda da evolução). O letrado tende para o estatismo (quando não para a reacção pura e simples). No fundo são ambos peças essenciais para a economia biológica da língua, pois, se não houvesse letrados, não seria possível a fixação mínima da língua; se não houvesse ignorantes, a língua mumificar-se-ia.

António Manuel Pires Cabral
("Morrer, mas devagar", in Estão a Assassinar o Português!)

Língua e Poder

Em todas as sociedades de classes a língua escrita e formal é um instrumento simbólico cuja apropriação, regimentação e gestão serve interesses grupais.

Celso Álvarez Cáccamo
(Maio de 1999)

Falta por demonstrar que o objectivo verdadeiro do sistema educativo nos regimes democráticos seja, efectivamente, a alfabetização universal, e não a selecção social por meio do suposto da alfabetização universal.

Celso Álvarez Cáccamo
(Maio de 1999)

Multilinguismo

Ser bilingue ou plurilingue é ser mais inteligente, porque é saber que o outro existe e que há outras representações do Mundo.

Bernard Cerquiglini
(entrevista no sítio da DGLFLF, 2002)

Neologia

Fingir ou achar vocabolos novos he perigo, diz Quintiliano, em tanto que, se são bos, não vos louvam por isso; e se não prestam zombam de vós. Verdade é que não ha cousa tão aspera que o uso não abrande.

Fernão de Oliveira (séc. XVI)

Ortografia

Desconhecer a ortografia não obsta a que se seja competente - e conhecê-la não impede que se seja um imbecil.

Marc Wilmet
(jornal Francité nº 25, 1999)

Passamos uma grande parte da nossa vida a aprender a escrever em francês, e os mais instruídos e mais inteligentes de entre nós só imperfeitamente o conseguem.

Pierre Larousse
(Dicionário Larousse, 1874)

Sendo a palavra escrita um produto da cultura, nisto, como em tudo o mais, o indivíduo tem o direito de adoptar a que quiser - a que lhe parecer melhor ou mais conveniente. Quer isto dizer que - ao contrário do que quer o Dr. Agostinho de Campos - cada um tem direito a escrever na ortografia que quiser; que, tecnicamente, pode haver tantas ortografias quantos há escritores.

Fernando Pessoa
(A Língua Portuguesa)

Provérbios

A língua não tem ossos, mas quebra ossos. (Grécia)

Purismo

Quando se buscam as raízes dessas repulsas que os espíritos nobres nutrem pelas palavras estrangeiras, vê-se que elas são devidas a associações de idéias, a recordações históricas, a intenções políticas, com que a lingüística tem muito pouco a ver. Aos puristas alemães a presença das palavras francesas fá-los lembrar uma época de imitação que gostariam fosse esquecida de sua história. Os filólogos helênicos que proscreveram as palavras turcas do vocabulário continuam, a seu modo, a guerra de independência. Os tchecos que levam o seu ardor ao ponto de querer traduzir os nomes próprios alemães para não deixar rastro de uma língua que suportaram por muito tempo, associam ao seu intento de expurgo a esperança de uma próxima autonomia. O “purismo”, em casos assim serve de etiqueta a aspirações e ressentimentos que podem ser em si legítimos, mas não nos deve permitir ilusões sobre a verdadeira razão dessa campanha lingüística.

Michel Bréal (1832-1915)

Variedades

A mim muito me contentam os termos que se conformam com o latim, não somente os que achamos per escrituras antigas, mas muitos que se usam Entre Douro e Minho, conservador da semente portuguesa, os quais alguns, indoutos, desprezam por não saberem a raiz donde nascem.

João de Barros
(Diálogo em Louvor da Nossa Linguagem)