Comentário do Capítulo 72 da Regra de São Bento

Admissão ao Noviciado do Irmão Jean-Pierre Verlinden, Abadia Notre Dame de Scourmont, Forges, Bélgica. Homilia do Abade Dom Armand Veilleux, em 20/12/1998.

 

Caro Jean-Pierre:

 

O Capítulo que escolheste para esta celebração de tua tomada de hábito é o penúltimo da Regra (RB 72) , mas sem dúvida, o último escrito pelo próprio São Bento. Além disto, este capítulo pertence a uma série dos mesmos que Bento acrescentou à sua Regra primitiva ao final de sua vida.

Todos estes últimos capítulos são caracterizados por um sentimento muito forte da comunidade e do dinamismo da vida comunitária. Por outro lado, este capítulo 72 tem uma forte orientação cristológica. Sua última frase, que deveria ser a última frase da Regra, antes de ser-lhe acrescentado o capítulo 73 como uma espécie de pós-logo, exprime muito fortemente o lugar preeminente que o Cristo tem na vida do monge, mesmo se o nome do Cristo não é explicitamente mencionado com muita freqüência: "Eles (isto é, os monges) nada preferirão ao Cristo, que deseja conduzir-nos todos juntos à vida eterna."

Desde o início do Prólogo, Bento dizia que dirigia sua Regra a quem quer que , renunciando às suas próprias vontades, tomasse as armas muito poderosas e gloriosas da obediência, a fim de militar pelo Senhor Jesus Cristo." E agora, termina sua Regra, pedindo que nada se prefira ao Cristo.

O que significa para Bento "nada preferir ao Cristo"? A resposta a esta questão é clara pelo fato de que o Cristo é aquele que "obedeceu até à morte" segundo o capítulo 2 da Carta de Paulo aos Filipenses. Com efeito, a parte central do capítulo 72 da RB faz uma espécie de paráfrase do início do capítulo 2 da Carta citada, que introduz o hino cristológico muito conhecido: "Ele, de condição divina... se fez obediente..." mas que é também um apelo premente à vida comunitária: "Levai minha alegria ao auge pela concordância de vossos sentimentos: tende o mesmo amor, uma só alma, um só sentimento; não tenhais espírito de partido, nem de vanglória, mas cada um pela humildade, estimando os outros como superiores a si mesmo, nada busque de interesse próprio mas mais o que serve aos outros." E Paulo resume nestas palavras tudo: "Tende entre vós os mesmos sentimentos que foram os do Cristo Jesus" (segue então o hino cristológico mencionado: "Ele, de condição divina....")

Assim, a finalidade da vida monástica é claramente a gradual conformação à imagem do Cristo. Mas o Cristo da Regra não é uma criação do espírito para ser encontrado misticamente numa oração desencarnada. É o Cristo do Evangelho, que amou até à morte, e que reuniu em torno de si uma comunidade de discípulos para lhes ensinar a amar com o mesmo amor e a manifestar como ele seu amor numa obediência radical: "rivalizarão de obediência uns com os outros" diz Bento e "amarão seu abade com um amor humilde e sincero".

A comunidade de Bento é a imagem da comunidade dos discípulos em torno de Jesus. Assim como não se vê no Evangelho que o Cristo instituiu uma escola de aconselhamento ou de acompanhamento individual, mas ao invés, constituiu uma comunidade e ensinou a seus discípulos a viver na comunhão uns com os outros, assim também Bento o fez em sua Regra.

Na realidade, este capítulo 72 da Regra nos dá o cerne da teologia da comunidade em Bento. Vejamos os grandes eixos: À vida eterna não se chega se o Cristo não nos conduzir; e o Cristo aí nos conduz todos juntos (pariter) e não como indivíduos isolados. Ele nos conduz se nós o tivermos amado acima de tudo; e provamos este amor se temos uns aos outros os mesmos sentimentos que eram do Cristo Jesus: isto é, um amor tão ardente que é chamado "zelo", uma palavra que significa fogo que queima. Ora, este amor não é uma vaga atitude sentimental mas uma disposição que nos torna cheios de respeito e deferência uns para com os outros, que nos permite suportar com uma extrema paciência nossas enfermidades físicas e morais, e que faz que não busquemos jamais o que nos é útil individualmente mas mais o que é útil aos outros.

Caro Jean-Pierre, há vários meses que tu estás conosco, e sem dúvida já pudeste desvendar nossas "enfermidades físicas e morais" para utilizar a fórmula de São Bento - mas tu pudeste também perceber em nós e no meio de nós a presença misteriosa do Cristo,

estás disposto a te deixar penetrar por este zelo, este fogo de amor fraterno, pelo qual se constrói cada dia nossa comunidade, e a de te deixar configurar, desta forma, gradualmente, à imagem do Cristo?

© Abadia de Scourmont, 1998

Traduziu: Cecilia Fridman, Rio Negro, PR, Brasil para o Mosteiro Trapista Nossa Senhora do Novo Mundo, 1999.