A NOVA ANTROPOLOGIA E A FORMAÇÃO MONÁSTICA

   Há 6 anos, por ocasião do Capítulo Geral (OCSO) de Poyo, na Espanha, tive a oportunidade de partilhar algumas observações relativas às jovens monjas que havia acompanhado no curso de seus primeiros anos de vida monástica. Estas monjas são uma pequena amostra da mentalidade contemporânea correspondente a suas respectivas faixas etárias: 30 a 40 anos, e 40 a 50 anos. Talvez essa amostragem não seja representativa, mas as observações serão todas referentes a um plano circunscrito: um mosteiro de monjas, na França, ou seja, na Europa, no período dos últimos 20 anos!

   Não tendo  propriamente uma formação antropológica, prefiro partilhar simples reflexões pessoais provenientes de 18 anos de vida cotidiana com jovens irmãs de nossa comunidade. Procurarei apontar o que é mais relevante hoje na mentalidade dessas jovens irmãs em formação no raiar do novo milênio.

   Procederemos tendo em vista duas etapas que ocorrem na ordem cronológica, durante a formação inicial:

                         O que traz as jovens à vida monástica,

                         O que cerca sua integração na comunidade.

 

   1º ponto: o mais fundamental: o que as trouxe ao mosteiro? Certamente é A BUSCA DE DEUS. Mas essa toma formas tão diferentes, ligadas ao tipo de inserção social e cristã vivida previamente. Há aqui lugar para uma grande diversidade.

Para as nascidas entre 1950 e 1960, a Fé, como tantos outros valores fundamentais é um dado que vai de si. A oração, a vida cristã e a prática religiosa regulares fazem parte dos elementos estáveis da vida, talvez sempre familiar ou pelo menos ambiente. Algumas já fizeram sua opção, no segredo de seu coração,  por uma vida religiosa desde a Primeira Comunhão, bastante precoce, aos 7 ou 8 anos. De resto, é ainda uma característica atual, em muitos lugares. No ano passado, quando de um encontro com D. Eduardo de Azul, este dizia-me que uma de suas preocupações era: como acompanhar vocações de rapazes e moças muito jovens. É claro que, no momento presente, o meio ambiente é menos propício que há 40 anos, mas o Senhor é sempre capaz de seduzir, através das estruturas da Igreja tais quais se apresentam e, à vezes, mesmo fora de qualquer estrutura.

   Para algumas, esse apelo foi o fio condutor de sua vida, mesmo se as circunstâncias lhes fizeram assumir outros compromissos antes de por esse projeto em execução. Nesse percurso as escolhas são claras, bem definidas. O mesmo ocorre com relação às dificuldades da vida cenobítica: elas estão ali e vai-se tentar lidar com elas. Não há questionamento sistemático ou contestação estéril. Há sobretudo um longo caminho a percorrer  na reconciliação, na cura e na  retomada de tudo que a vida fechou ou deformou por um reflexo defensivo. Trabalho de fôlego! O desafio que se põe aqui à vida monástica vai ser o de preservar em todo seu frescor, em todo seu dinamismo, o carisma cisterciense. O mosteiro é um lugar em que poderá renascer o fervor de um primeiro amor. Será preciso, no entanto, desmascarar as tentações e ocasiões de fechamento sobre si mesmo, ultrapassar os limites que as experiências infelizes do dom de si em formas de vida comum ou comunitária tenham proporcionado. Ir além de uma certa incapacidade de doar-se e crer novamente que tudo é possível, eis aí o quadro mais freqüentemente encontrado.

Estamos todos ainda encantados pelo que a família cisterciense viveu por ocasião do 9º Centenário de Cister: esse realimentar-se no elã dos inícios que, contudo, não caíram prontos do céu. O apelo dos episódios da vida de Roberto de Molesme terá sem dúvida reconfortado mais de um cisterciense ao rever desenrolar-se sua longa e pertinaz procura de uma vida livre, “pobre com o Cristo  pobre”. Vendo ainda as primeiras tentativas de Estêvão na vida monástica, sua longa peregrinação a Roma, e depois sua estabilização com a entrada no Novo Mosteiro, não  podemos  mais dizer que é nossa época que procura seu caminho tateando! Mas enquanto Roberto, Alberico e Estêvão puseram-se a caminho em razão de sua busca do absoluto, para nossos contemporâneos é freqüentemente o fracasso ou o impasse que lhes fecha a estrada que os forçam a partir de novo. E sua angústia é tanto maior pois a sucessão de rupturas os leva a buscar seu caminho em uma idade em que as gerações precedentes tinham já encontrado uma orientação estável para sua vida. Haverá certamente menos jubilares em nossos mosteiros no próximo milênio que no atual que está por findar!

   A ruptura do casal que os pais formavam, caso de uma maior proporção de irmãs que há 6 anos, viveu-a desde a infância. As conseqüências, o sofrimento, duram para sempre, mais ou menos difíceis de administrar. Saber que todos os membros da família estão vivos e que, sem dúvida, não voltarão jamais a reunir-se, será sempre um sofrimento contínuo e surdo que se desperta subitamente, quando os pais encontram-se juntos na hospedaria do mosteiro e, inconscientemente, dão à irmã o papel de árbitro mas deixando-a suportar de novo em seguida, no seu cotidiano, a realidade da separação.

   Outras conheceram também essas rupturas em sua própria vida ou no seu círculo mais próximo. Tais rupturas, hoje, tornaram-se  mais freqüentes ainda que há 6 anos: divórcio, desemprego, trabalho temporário... sem esquecer a irrupção da doença grave que vem de repente alterar o curso a existência e a de todo grupo familiar. A Fé é mais difícil, e não somente no plano religioso: é difícil crer que, quanto aos pais, a coisa pode ir longe, que a economia não é só artifício, que uma causa humanitária não é uma forma de aproveitar da generosidade pública, que os políticos não são apenas manipuladores, difícil, enfim de crer que temos dentro de nós a força para atravessar a vida.

   Somos aqui provocados à esperança, a abrir o caminho com a força da Ressurreição. As velhas culpabilidades com relação ao itinerário seguido antes de responder ao chamado primeiro poderão um dia dar lugar a uma celebração da Misericórdia através de um novo engajamento sem restrições nem reservas, uma abertura confiante ao futuro. Isso nos torna totalmente solidários com inúmeras pessoas confrontadas, às vezes de forma brutal, com seus caminhos bloqueados ou com mudanças de orientação, seja obrigatórias, seja deliberadas. Longe de ser uma fatalidade, sentida como uma repetição  de fracassos,  a sucessão de estados ou lugares ou de condições de vida pode contribuir para a descoberta da Vida sempre nova, para a abertura ao Nome novo, em uma Aliança sempre Nova, porque a Fidelidade de Deus é eterna. Nossa vitalidade será encontrar, em cada re-orientação, um trampolim para partir novamente, para crescer em humanidade. Justamente a chance de nossas comunidades é colocar em relação próxima diferentes gerações. Todos sabemos quanto é precioso o testemunho de sabedoria, de profundidade, de longa fidelidade que podem dar, sem mesmo disso se aperceber, nossos irmãos e irmãs ditos “os mais velhos”.

   Para as irmãs nascidas entre 1960 e 1970: pode-se encontrar o mesmo apelo, precoce ou não, mas com contornos mais fluidos, uma formação catequética mais aleatória, muito marcada pelos questionamentos de “Maio de 1968”, tanto ao nível sociológico como teológico. O Concílio, acontecimento maior desta última metade de século, abriu as janelas para a amplidão. Mas a lufada de ar fez voar em pedaços algumas seguranças e alguns tipos de relações tradicionais. Todas  as formas do meio familiar existem: desde a família  bem tradicional, confortável, mas em que os filhos crescidos tem uma adolescência muito difícil, em revolta contra os ritos e obrigações sociais, até a família que se move como grupo aberto. Tudo isso se complica com a queda das diferenças entre as gerações, com a colocação entre parênteses da autoridade e do papel dos pais, os quais parecem reentrar na adolescência e aí permanecer por um bom tempo!

  

   Ao nível da procura da vocação, as jovens experimentam mais em termos de SEDE, de busca vital. Não é talvez ainda a sede de Deus, no sentido em que se exprime São Bernardo, mas elas sentiram um certo esgotamento em meio a experiências de vida em grupos onde as pessoas elegeram umas às outras para partilhar seu questionamento, para refazer o mundo, ou simplesmente fugir. Pouco a pouco, sobretudo nas grandes cidades, a escola ou a Igreja, que eram lugares pedagógicos de transmissão de uma herança, de um saber, de valores, tornaram-se lugares de experimentação em que as verdades mais  objetivas são relativizadas à medida do indivíduo, gerando tanto incertezas e angústias quanto incapacidade durável de realizar atos que comprometam para o futuro.

 

   Um trunfo para a formação, tal é na verdade o dinamismo devido a essa sede, essa  carência experimentada pelas jovens. Carência de SENTIDO, carência de perspectivas para o FUTURO, carência de SOLIDARIEDADE, carência de RELAÇÕES VERDADEIRAS. Todo esse aguçar do apetite é uma ABERTURA promissora em que tudo pode ser empreendido. Com o risco, todavia, de ceder à precipitação e, sobretudo, dada a predominância da afetividade, de só fazer escolhas orientadas para um modo de relações caloroso e efêmero. Uma pesquisa junto a  jovens de 20 a 30 anos mostrou que seu medo mais vivo é o da solidão, o medo de não ser alguém para alguém. Pode-se notar isso em nossa forma de vida, mas certamente de maneira mais suave que nas periferias de nossas cidades, através das manifestações de agressividade, ligadas  a essa  necessidade de ser reconhecido, ouvido, tomado em consideração.

   Nessas condições, o desafio específico da vida cisterciense será balizar o caminho, oferecer sinais de orientação firmes mas flexíveis, em que as pessoas não cessam de chocar-se com um questionamento sobre o sentido  mesmo das observâncias, mas onde será possível convidar a uma iniciação paciente na prática dos hábitos que estruturam, que “ordenam a caridade” a partir de uma vivência comunitária, de um consenso, de um conviver. Os costumes da casa, com seu poder de “colocar em ordem” são um guia que algumas descobrem: juntos aprendemos a viver e a ter uma “SABEDORIA DE VIDA”.

 

   Para as mais jovens ainda, nascidas após 1965, o chamado as encontrou bem mais adiante, em um mundo quase estranho à Fé. Uma intuição as pôs a caminho: Deus existe, e elas querem ir para ELE. É possível encontrar aqui todos os níveis de formação humana, cultural e religiosa e também todos os níveis ou inexistência de níveis na inserção social. O que parece uma constante é justamente a instabilidade do que há nelas e as cerca: multiplicação de experiências ao sabor das fantasias e das ocasiões, fuga através da televisão, vista sem continuidade e com tédio. Tudo é avaliado em função da subjetividade: o real existe desde que me sinta envolvido. O encontro sedutor com correntes espirituais como o budismo ou a meditação “zen” faz com que se atribua um mesmo nível de legitimidade a todas as religiões, sem a devida análise do dado ideológico que supõem. Deduz-se daí que é possível buscar o próprio alimento onde quer que se esteja: a tolerância torna tudo de um mesmo valor.

   É verdade que não somos nós que determinamos os cenários nos quais Deus se deixa encontrar. Muitas vezes, é precisamente a partir de uma experiência que se situa ao nível do que foi “sentido”, da sentimento, da sensação, pois são o meio de conhecimento privilegiado. Aqui é necessário um bom tempo de catequese antes que de chegar a retomar o caminho para o Deus revelado por Jesus Cristo, o Deus da Bíblia e do Evangelho, confessado pela Igreja e na Igreja.

   Para a formação, o desafio, com estas jovens, parece-me ser a aprendizagem da INTERIORIDADE, da PERMANÊNCIA, da PERMANÊNCIA NA INTERIORIDADE. O tempo, ritmado ao longo do ano pela LITURGIA, pela organização da jornada monástica segundo São Bento, pela entrada a passos lentos na VIDA DE ORAÇÃO, torna-se um aliado que permite a maturação em todos os níveis da pessoa: corpo, afetividade, sensorialidade e mesmo restruturação da memória e da capacidade de julgar, além de aprendizagem da objetividade.

2º ponto: integração na vida monástica

   Em todos os domínios da vida monástica, tal qual  se apresenta, há interrogações que vão encontrar  sua resposta  se a comunidade é viva, cheia de bom zelo (RB 72), quer dizer, se cada um dos seus membros, através de seus limites, vive plena e simplesmente cada momento do dia, entrando o máximo possível no consenso comunitário de maneira responsável e alegre. Todas as questões sobre o SENTIDO da existência, da vida consagrada, da renúncia fecunda à própria vontade, da pobreza vivida com alegria e do ágape fraterno, todo este questionamento é GERADOR DE VIDA NOVA para a maneira pela qual vivemos a dimensão contemplativa de nossa vida. É um tempo de prova para cada um, não somente para as jovens: verificação do sentido das relações fraternas, do sentido do celibato, da continência, do sentido do trabalho manual, do sentido da liturgia, do sentido de uma vida de gratuidade, livre de toda servidão à rentabilidade material, do sentido de uma existência votada integralmente a Deus, de uma existência portadora de vida para o mundo e realização da pessoa em todas as suas potencialidades.

   A grande angústia com a qual cada um se defronta, de maneira única, é: “QUEM SOU EU? O QUE QUERO REALMENTE? VOCÊ PODE AJUDAR-ME A MELHOR SABÊ-LO? Esta pergunta é feita por cada um e a ascensão à vida adulta exige para todos uma longa busca. Os mais velhos atravessam  uma crise de rejeição dos pais. As explicações que são encontradas para o comportamento dos pais, não permitem aceitá-los automaticamente tais quais são ou foram no passado. A integração na comunidade passa por um longo trabalho de reconciliação, perdão, aceitação lenta de tudo que nos fez tornar-nos o que somos hoje. A questão que vai permanecer aberta no plano de fundo é: “Que fiz do que me fizeram?”  Ou seja: em torno de que me construí a mim mesmo(a)? Pode ter havido ferida, agressão, angústia. Em si mesmas essas experiências não geram resposta típica, é minha reação que, pela força do Espírito Santo, vai orientar meus fechamentos ou meus dinamismos.

A convicção de nossa FÉ é que Deus não arrancará uma só página de nossa história, nem as mais luminosas, nem as mais dolorosas. Isto se choca com a mentalidade contemporânea que quer fugir da dor sob todas as suas formas, e sobretudo fugir da morte. Que desafio quando é preciso justamente encarar o compromisso “até a morte”. Quantos recuos, por vezes, para evitar por todos os meios que esses momentos dolorosos voltem com sua carga emocional, sobretudo quando uma forma de vida comum, casamento ou vida comunitária, decepcionou muitas esperanças e causou de novo tantas feridas.

   A busca de identidade, para a geração seguinte, toma uma forma um pouco diferente. As verdades universais tendo-se  tornado mal vistas pela contestação, os jovens esboçaram outra etapa da “morte do PAI”. A criação de novas formas de vida comunitária, baseada sobre a fraternidade, abriu o caminho para uma valorização da afetividade, da emotividade, das escolhas feitas em função dos sentimentos, e não mais dos valores verdadeiros e fortes. O acento é posto sobre a equipe, o grupo. O temor  de toda hierarquia, de toda autoridade, torna mais laboriosa a entrada na OBEDIÊNCIA VERDADEIRA. Toda valorização da PESSOA, de sua espontaneidade, de sua criatividade é muito positiva. A generosidade, a clareza, a confiança são imensas, mas quando são  apenas o fruto do que se sentiu pessoalmente, podem também gerar uma imensa solidão.

   Fica pois o desafio maior: inscrever o crescimento em um conjunto de critérios, de pontos de referência para a moral e as relações. Aqui ganha toda sua importância o conjunto de “codificações”  que antigamente chamavam-se os “usos”. Entrar na vida cisterciense leva a algo de muito novo para a metade das jovens : um modo de  relações construídas sobre um RESPEITO das pessoas em sua própria identidade, em sua diferença, em seu papel respectivo. São Bento descreve isso nos capítulos 63 (da ordem na comunidade), 26 e 27: como tratar dos excluídos, e, para canalizar as iniciativas que poderiam derivar apenas dos bons sentimentos, ele precisa a quem compete fazê-lo!

   Quando a Regra fala do abade, diz justamente: será chamado “Dom” e “Abade”, porque ocupa no mosteiro o lugar do Cristo (RB 63,13). E ainda: “Deve sempre lembrar-se do nome que lhe é dado e provar por seus atos seu nome de superior” (RB 2,2). Tudo o que está dito até o capítulo 52 (do oratório do mosteiro) só faz por em foco a importância que têm os lugares e as pessoas quando são verdadeiramente o que são: “O oratório seja o que seu nome indica e não se fará aí nem se colocará nada aí que não tenha relação com sua finalidade”. Eu me pergunto às vezes se não está aí o maior desafio que devemos enfrentar desde os últimos 20 ou 30 anos.

   Esse deslocamento foi vivido pelas mais velhas, seja participando de grupos que militam a favor da Libertação da Mulher, seja adotando a moda unisex, seja valorizando “o amor sem risco” em que o sentimento não encontra mais espaço para nascer e crescer, fazer nascer e fazer crescer. Como se o amor não fosse a mais alta forma do risco! Chegou-se, com as mais jovens, a experiências ainda mais fluidas, mais narcisistas, em que a vida relacional é nivelada e, às vezes, negada. Pode-se encontrar personalidades que têm muitos pontos em comum com os giróvagos e sarabaítas  descritos por S. Bento, sempre a caminho, jamais no repouso, sem cessar à procura do prazer imediato! E elas são capazes de se descrever a si mesmas como tais, de se reconhecer sob os traços desses dois gêneros que, para os monges,  são detestáveis!

   Como saber quem se é quando o homem, a mulher, não mais se situam um com relação ao outro, em uma sadia distinção que permite o diálogo e em que a criança é convidada a encontrar a vida? Quando o cônjuge, os pais, os educadores, os adultos são recusados ou não aceitam mais ser o que são, quer dizer, aqueles  a partir dos quais as crianças se estruturam, o que pode ocorrer? A angústia mais freqüentemente expressa pelas mais jovens é: “Sou normal?” Tal interrogação abrange todos os planos, do mais profundo ao mais superficial. A informação difundida pela mídia visa a uniformizar, “asseptizar”, padronizar as experiências, o comportamento, os sentimentos, a vestimenta, a cultura, sem esquecer o vocabulário.

   Uma estatística recente, aparecida na França, teria descoberto o consumo de droga em uma criança de cada três em idade escolar. Isso pode começar de maneira bastante banal através de um tranqüilizante oferecido pelos pais durante o período dos exames, inconscientes do que está em jogo nessa iniciação. Uma monja, voltando de uma consulta médica, dizia-me ter ficado chocada com o número de moças entre 13 e 14 anos que tinha visto na cidade com uma forma de vestir que as envelhecia, no gênero dos manequins das lojas, como se estivessem prontas para participar de um desfile de modas. “Não se dão conta, comentou, dos limites para o engajamento do corpo.” Esta irmã teve, ela mesma, uma adolescência muito difícil, vivendo com as turmas de jovens, procurando compensar seu desespero na droga ou nas relações marginais, e foi no vazio dessas experiências que o Senhor chegou até ela, num saltar para a vida. Ela comenta seu encontro com as jovens das   ruas: “ daqui a dez anos, serão essas jovens que virão bater à porta dos mosteiros, tendo atravessado os desvãos das trevas, tendo estado à beira de abismos que tu não imaginas! Qual será seu quadro de referência? Elas terão parâmetros que nós não temos. Como poderemos compreender seu modo de agir?” Aqui também houve uma evolução nos últimos seis anos: essas experiências estão cada vez mais espalhadas, para não dizer generalizadas, banalizadas. Deixo ainda a palavra com essa noviça, que partilha sua experiência a respeito do mal que pode fazer essa banalização a todos os níveis do humano: físico, psicológico, moral e espiritual.

   “A mídia fala tanto que a maconha é suave que  se pode parecer defasado, se, em uma festa, não se pega um cigarro de haxixe, ou então, se se vai a uma “rave party,” não se consome  o que exprime e concretiza a fraternidade: o ecstasy. É a comunhão a partir do que é partilhado. Mas em Woodstock, há 40 anos, era semelhante. O que choca é que se trata de jovens “bem” e não daqueles do Quarto-Mundo.  Apóiam-se sobre coisas que arruínam sua saúde. É quase institucionalizado, é o rito do sábado à noite, toma-se a pílula, explode-se e é tudo.”

   Uma das principais tarefas às quais é preciso dedicar-se com entusiasmo  na formação monástica, tanto quanto a catequese, é a de reencontrar uma antropologia mais luminosa, tal qual é possível achar nos grandes textos do Vaticano II, que respira a Bíblia a plenos pulmões. No Gênese Deus cria Adão homem e mulher. Esta é  a semelhança que confia ao homem: o poder de doar-se totalmente, a sua imagem. A relação do homem com a mulher é do gênero da oblatividade, não da necessidade biológica como a respiração ou a nutrição. Reencontrar uma plena teologia do Corpo, onde este é aquilo pelo qual o homem e a mulher se doam plenamente, qualquer que seja o estado de vida em que estão engajados.

   Diante dos extravios que os jovens têm conhecido - experimentar até ao desespero - vai tornar-se para nós um dever   assistir a essa geração em perigo promovendo o sentido, promovendo o que vai ajudar a por em ação os valores, uma disciplina, no sentido de “tudo aquilo que permite tornar-se discípulo.”

   E justamente um trunfo para a formação das jovens é sua falta de conhecimentos adquiridos, notadamente  a respeito da Bíblia, do que é Deus, do que é o homem criado por Deus. Tudo é NOVO, não ainda gasto por tantas leituras distraídas. Como descobrem rápido a que ponto é nutritivo, pode-se vê-las realmente com apetite! Fica-se maravilhado ao vê-las saborear verdadeiramente o ano litúrgico, com as leituras bíblicas e patrísticas, o ciclo das leituras do Evangelho, o ofício vivido como “fonte de piedade e alimento da oração pessoal” (Introdução Geral à Liturgia das Horas, nº3).

   É preciso porém vencer esse costume de “borboletear” ou de leitua em diagonal. Ocorre-me dizer que uma das piores invenções do século XX é o controle-remoto para a televisão: ele permite mudar sem cessar de programa, ao sabor..... do tédio. É uma máquina para favorecer a acédia! A prática do “surf” pela Internet, o contacto com interlocutores virtuais não se tornou ainda habitual nas jovens monjas em formação, mas as mais jovens terão tido certamente a oportunidade de experimentá-lo. São Bento combate essa incoerência de uma forma sábia: “este livro será lido em ordem e por inteiro (RB 48,15). A lectio divina visa a restabelecer para toda a pessoa o seu eixo a partir da Palavra de Deus e da Tradição. É o aprendizado do dado da FÉ, mas também a reeducação da inteligência, da vontade, e ainda da imaginação. Igualmente o lugar do CORPO na LITURGIA, por exemplo, vai permitir muitas descobertas e reconciliações.

   O DESEJO  de aprender verdades que ajudam a viver é unanimemente partilhado por todas as jovens, e pode-se ver com alegria sua entrada na TRADIÇÃO bíblica, patrística, filosófica e espiritual. A ANTROPOLOGIA  que se pode traçar a partir dos escritos dos Padres Cistercienses surpreende e seduz inteiramente, por sua profundidade espiritual e escriturística além de seu lado concreto, próximo da vida. É nesta direção que as jovens procuravam a vida, mas sem suspeitar de uma tal correspondência com sua própria experiência. A visão do homem para os cistercienses é dinâmica, otimista. Todo homem é criado à imagem de deus, eis aí o fundamento de sua dignidade. Ele perdeu a semelhança, permanecendo atraído para Deus embora tornado pesado pelo pecado, mas a misericórdia lhe ensina a consentir em ser salvo, a consentir na obra do Cristo nele. O homem  não se torna livre de um só golpe, mas por etapas: só o Cristo revela o homem a si mesmo.

   A sensibilidade quase generalizada à ECOLOGIA, ao valor do CORPO, à proximidade da NATUREZA, e, em conseqüência, à FRATERNIDADE, eis grandes motores prontos a contribuir para a aventura da maturação dessas jovens. Um dos eixos da integração à vida monástica vai ser aprender a passar do prazer de estar junto à graça de estar junto. Educar a CARIDADE no interior da comunidade cujos membros são escolhidos por Deus e não por nós, eis o que fará avançar um grande passo na direção da LIBERDADE mais autêntica: o generosíssimo ideal da fraternidade, do amor universal e da abolição das fronteiras partilhado por toda essa geração encontrará rapidamente aí um terreno de aplicação concreto e imediato.

   Manter  o leme na direção da FÉ CRISTÃ, com a ascese por vezes despojadora que ele exige, eis ainda um DESAFIO bem vivo e cotidiano. Retornar das miragens do ocultismo também não é fácil. Ele deixa não apenas traços espirituais, mas também uma atitude de tipo mágica que deseja evitar o “risco”, o desconhecido, o que leva a buscar a intromissão na vida privado do outro, mantê-lo num quadro sem surpresas.

   As últimas gerações não viveram grandes acontecimentos históricos ou sociológicos, não tiveram mesmo, no caso de algumas, a oportunidade de encontrar A MORTE atingindo um dos seus. Sua inocência um pouco egocêntrica, até narcisística, vai exigir de nós muita paciência. Trata-se de lhes proporcionar longos momentos de escuta, sem ceder à tentação de minimizar sua experiência vivida, tanto mais longa para narrar justamente por não possuir, para muitas delas, contornos definidos.

   Diversos elementos novos na mentalidade contemporânea devem-se à pesquisa tecnológica. O progresso tem tantas facetas positivas que pode-se bem deixar de discernir as conseqüências que pouco a pouco se instalaram nas formas de pensar, reagir, e viver. A maneira de trabalhar, igualmente, , tem mudado nos últimos anos. O equipamento das queijarias, mesmo modestas, como o são as queijarias de nossos mosteiros, comportam diversos elementos eletrônicos. A relação com o tempo, com a utilização do material, torna-se mais cerebral, menos pragmática que quando a técnica transmitia-se entre as gerações de irmãs, com tanta seriedade quanto se transmitia o nome do santo ou da santa a invocar para sair de tal dificuldade na preparação dos queijos.

   O maior desafio gerado pela tecnologia é reencontrar o sentido do risco, da abertura ao futuro, do abandono à Providência...

   Imperceptivelmente, toda dor, todo mal recebe um remédio e não é mais possível ficar sem ele, suportar, ficar firme. Tenta-se tudo, e tudo o que não proporciona uma satisfação total no instante é utilizado, rejeitado, ainda que fosse o cônjuge! Não há lugar para o imprevisto, para o não programado, o desconfortável. A civilização do “air-bag” e do telefone celular dá-se os meios para garantir a segurança do corpo e da relação, mesmo se ao preço do espaço habitável e do espaço vital. Pergunto-me se não se pode chegar a dizer que há uma reconstituição do cordão umbilical ou uma atitude de cobaia, enquanto todo o discurso reivindica o individualismo, a autonomia e a independência.

   Será preciso de agora em diante procurar o modo de sair da prisão de um universo em que a contracepção foi erigida em sistema, porque tornada “moralmente aceitável” e “razoável”. Esta forma de evitar a concepção, de esterilização, é talvez mais perniciosa que o aborto. Neste uma criança (que incomoda) é “suprimida”, naquela, é “evitada” como se procura evitar a Aids ou como se procura “evitar” todo perigo. Quando se perde de vista a natureza oblativa das relações humanas, quando, quando se faz da esterilização não um remédio eventual para situações objetivamente difíceis, mas um ideal de busca de conforto e gozo, é a todo futuro que se fecha o caminho, até nas escolhas mais simples, na vida cotidiana e sobretudo  na vida fraterna, relacional.

   Certamente Deus não escapa a essa estranha busca de segurança, esse foi sempre o terreno de combate espiritual através dos séculos! De fato, o grande DESAFIO para os formadores é precisamente por tudo em ação para permitir aos jovens fazer uma  verdadeira experiência pascal de Deus, bem no coração de sua fragilidade, de seus limites, de suas angústias, mas também de sua avidez, de sua esperança, de sua confiança ao longo dos dias.

   Por vezes o relato de suas experiências pode ser pesado de acolher, insuportável quase. Um grande trunfo para os jovens e um estimulo para as comunidades e para os formadores é com toda certeza essa abertura confiante em relação aos mais velhos. Temos que estar mais do que nunca prontos a dar razão da ESPERANÇA  que está em nós e que não decepciona porque o Amor foi derramado em nossos corações pelo Espírito.

 

                                         Notre Dame de Chambarand, Pentecostes de 1999.

                                         Irmã Marie-Pascal DRAN (ocso)