SÃO ROBERTO

 

 

 

 

OS PRIMEIROS

ANOS

O lugar e a data de nascimento, assim como a família e a juventude de Roberto estão envoltos no mistério. Estudos profundos levaram os historiadores a terem destes factos uma visão que podemos considerar digna de crédito. A partir da data da sua morte ocorrida em 1111, à idade de noventa e três anos, podemos deduzir o ano do seu nascimento, a saber, 1028 ou 1029. Seus pais chamavam-se Teodorico e Ermengarda. Pertenciam à família dos condes de Tonnerre e ao ramo dos Maligny. Foi em Tonnerrois e sem dúvida em Champagne que Roberto viu por primeira vez a luz e recebeu a sua formação.

 

Entre as maravilhas que teriam rodeado o nascimento desta criança abençoada, conta-se uma que interessa aos historiadores. Sua mãe, quando ainda levava no ventre aquele que deveria desempenhar um importante papel no reino de Deus e ser um apóstolo da devoção a Maria, viu aparecer-lhe a Virgem Santíssima que lhe entregou uma linda aliança, dizendo-lhe que aquele menino que ia pôr no mundo estava chamado aos desposórios espirituais com Ela, a Rainha do céu. Em si, este sonho não passa de lenda, mas testifica um facto histórico: a grande fama de santidade de Roberto e a fé popular na sua vocação muito particular. Da sua devoção à Santíssima Virgem não temos senão um testemunho directo e explícito: a consagração do oratório de Molesme à Rainha do céu e da terra e o costume, muito antigo na Ordem de Cister, de seguir este exemplo em todas as fundações posteriores. Visto que Roberto lançou os alicerces espirituais da Ordem e que, precisamente este pormenor da sua devoção a Maria foi transmitido à posteridade, devemos reconhecer-lhe também o mérito de ter comunicado à Ordem de Cister o culto a Maria, de que são Bernardo foi o grande heraldo. Notemos, no entanto, que, neste ponto, como nalguns outros, Cister não fazia mais do que continuar esta tradição amada pelos grandes abades e santos do círculo de Cluny.

OS COMEÇOS EM

MONTIER-LA-CELLE

 

 

 

O chamamento divino à vida monástica que coincidia com a intenção dos pais o destinarem aos estudos, levou Roberto a abraçar a vida religiosa em Montier-la-Celle. Segundo a Vita, entrou aos quinze anos e foi eleito prior claustral em data desconhecida. Geralmente, pensa-se que era ainda relativamente jovem quando foi designado para esse cargo. A sua ascendência familiar, as virtudes e talentos pessoais, assim como o costume de nomear abades e priores muito jovens, justificam a opinião que considera o ano 1050 como data provável dessa nomeação.

 

Enquanto ocupou esse lugar, um grupo de eremitas vivia numa floresta das proximidades da abadia. Por outra parte, ele próprio, segundo diz o seu biógrafo, teria ajudado a formar este grupo, dadas as suas qualidades: um argumento de devoção e, por conseguinte, uma nova lenda, fundamentada na evolução futura desse eremitério, que não foi senão a fundação de Colan, gérmen de Molesme e de Cister. Já desde muito cedo estes eremitas receberam a direcção dum monge de Montier-la-Celle, mas ignora-se se foi Roberto quem acumulou este cargo ao seu priorado.

 

Por volta de 1068, ou mais cedo, os monges de Saint-Michel-de-Tonnerre elegeram Roberto como abade. Este só aceitou o cargo mediante uma condição: os religiosos deveriam aceitar uma certa reforma que ele concebera como necessária para bem deles. Prometeram-no, mas não mantiveram a palavra.

 

Então, os piedosos eremitas de Colan solicitaram Roberto para que se tornasse seu superior. Em vão... Quer seja porque Roberto não estivesse de acordo com a sua maneira de viver a vida eremítica, quer porque se sentisse obrigado, por uma questão de consciência, de continuar a tentativa de reforma começada, não se rendeu ao seu pedido.

 

Pouco tempo depois, porém, foi obrigado a abandonar Saint-Michel-de-Tonnerre e a regressar ao seu mosteiro de profissão. A indocilidade dos monges obrigaram-no a isso. Os eremitas renovaram o seu pedido, mas foram mais uma vez defraudados nas suas esperanças.

 

FUNDAÇÃO DE

MOLESME

 

Uma casa-filha da abadia de Saint-Michel, o priorado de Ayoul-en-Province, encontrava-se sem superior. Os monges pediram e conseguiram que Roberto lhes fosse dado como prior. No entanto, os eremitas de Colan não se desanimaram e fizeram uma última tentativa, e também a mais eficaz, para ganhar o jogo. Apelaram para a autoridade do papa. O Sumo Pontífice reinante era Gregório VII, antigo monge, que se converteu no propagador zeloso da reforma monástica. Deu-lhes o seu consentimento. Esta intervenção papal, pela qual o Sumo Pontífice mostrava partilhar da estima e confiança dos solitários para com Roberto, constitui o primeiro contacto com as esferas superiores do movimento monástico do século XI. O nome de Roberto, já célebre na região, passou a ser, desde então, conhecido em Roma. É pena não estarmos mais documentados sobre os pormenores deste acontecimento. Esta lacuna estende-se também à transferência do eremitério, no ano seguinte, para um novo local, Molesme.

 

Esta transferência tem a ver indubitavelmente com a situação e o local em que viviam os eremitas. Se os recursos tinham bastado até então para sustentar um e depois três e até sete monges, tornaram-se insuficientes para os futuros membros do grupo. E se as privações e sofrimentos impostos pelas circunstâncias do lugar eram suportáveis para um só homem ou um pequeno grupo de pessoas de ideal elevado, poderiam, a longo prazo, ir mais além das capacidades dum número crescente. “Congruentiam loci desiderans1, procurando um lugar mais adequado para se estabelecerem, Roberto devia também prever o estabelecimento dum mosteiro beneditino regular, com correntes de água para as necessidades da cozinha, moinho, lavadouro e outras, um mosteiro na proximidade de terras laboráveis, que eventualmente se pudessem obter pelo arroteamento de vegetação cerrada ou de bosques.

 

A julgar pelas acções que se seguiram, o novo local respondia a todas as necessidades e desejos. Mas também levam a pensar que a intenção de transformar o eremitério em abadia beneditina regular fazia parte das aspirações e planos de reforma do abade Roberto. Corresponderia este plano com o que mais tarde concebera de comum acordo com Alberico, Estêvão e os outros fundadores de Cister? Impossível afirmá-lo; mas seria igualmente temerário negá-lo radicalmente. Alguns pormenores da fundação de Molesme fazem pressentir a reforma de Cister e a fundação da abadia-mãe desta nova Ordem monástica, mas seria difícil recolher, entre os dados positivos relativos aos acontecimentos de 1075 e dos anos seguintes em Molesme, os pontos essenciais do plano de reforma de 1098 e de 11002.

 

No entanto, as semelhanças são muitas e importantes. Já foi dito que, a exemplo de Molesme, as igrejas cistercienses foram dedicadas à Mãe de Deus. Convém não esquecer, por outro lado, que Roberto, ao aceitar a direcção dos solitários e Colan, quis impor-lhes uma reforma: fê-los renunciar ao eremitismo para abraçarem o cenobitismo puro de são Bento. Ora, este cenobitismo puro de são Bento foi precisamente o objectivo principal da reforma cisterciense.

 

Há um pormenor a assinalar: a escolha de um terreno muito isolado, boscoso e selvagem. O trabalho manual não deve ter assustado os fundadores, dada sua vontade de pobreza. Encontra-se, por outro lado, este mesmo zelo, esta mesma determinação, nas reformas contemporâneas, em particular nas que procediam de Molesme. A revalorização  do trabalho manual pode ter feito parte do programa da nova fundação. Ora Cister distinguiu-se pelas suas exigências em matéria de pobreza e pela estima em que se tinha o trabalho manual.

 

Finalmente, note-se este outro elemento importante: o domínio patrimonial de Molesme pertencia aos senhores de Maligny e fora cedido ao grupo de  Roberto a título de alódio, portanto isento de qualquer imposto. Ora os primeiros cistercienses tiveram o cuidado de possuir dessa maneira os bens que lhes eram oferecidos. Podiam, assim, libertar-se de relações inoportunas com o mundo, como ter de tratar assuntos nas cortes senhoriais e nos castelos, as incessantes idas e vindas requeridas na entrega dos dízimos, entre as abadias e os grandes proprietários por um lado, entre as abadias e os seus locatários ou rendeiros por outro. De facto, os Cistercienses procuraram a isenção de dízimos e também não quiseram explorar desse modo a mão-de-obra de rendeiros ou servos. No entanto, não tiveram frequentemente um sucesso total senão depois de vários anos de espera, depois de terem multiplicado as tentativas e reiterado os pedidos.

 

Já em Molesme o domínio predial foi dado como propriedade completa, alódio franco, sem qualquer retenção de direitos de senhorio. Uma reserva, porém, foi feita por uma parte dos servos estabelecidos na terra de Molesme, com os terrenos por eles cultivados e a parte que lhe correspondia sobre o dízimo que essa terra pagava à igreja de Pouilly3. O terreno de Molesme fora oferecido pela família de Maligny, a mesma que tinha dotado a fundação de Colan; desta dupla doação se deduz que estaria ligada à família de Roberto, fundador dos dois mosteiros. O acto foi assinado pelo principal dador, Hugo, senhor de Maligny, pelas suas irmãs e sua parentela. Tescelin o Ruivo, pai do futuro são Bernardo, assinou como testemunha. A doação fora feita a Nossa Senhora e aos treze monges que se dedicavam ao seu serviço.

 

A OBSERVÂNCIA
DE MOLESME

 

Desde o ponto de vista das observâncias, seríamos tentados a ver na fundação de Molesme como o prelúdio da de Cister, um Cister falhado, como já se escreveu4. Várias razões, no entanto, pugnam em sentido contrário. Molesme ignora, em realidade, mais de um ponto essencial da reforma cisterciense, como as fundações constituídas em verdadeiras abadias, a maior importância dada a certos pontos da Regra no relativo ao regime alimentar, vestuário, trabalho manual, etc., como também a instituição fora de dúvida dos irmãos conversos. Por outra parte, os pontos comuns com Cister, tais como o isolamento, a separação do mundo, o amor à pobreza encontram-se nas outras reformas monásticas da época. Temos de reconhecer, em todo o caso, que o ideal de Molesme encerrava em gérmen o de Cister e que este último foi a explosão normal, lógica e historicamente, do primeiro. O facto de que um só e mesmo homem tenha presidido às duas reformas confirma este ponto de vista.

 

Molesme não era ainda Cister: compreende-se se pensarmos na crise de miséria que teve de superar por volta de 1080. Entre 1075 e 1079, a abadia tinha vivido numa pobreza por vezes excessiva. Em determinados períodos, faltou o pão aos monges: depois de um dia de trabalho duro, não tinham senão legumes para se alimentarem. Em semelhantes circunstâncias, ninguém pensava, como acontecerá mais tarde em Cister, em legislar sobre a frugalidade das refeições nem sobre a simplicidade do vestuário.

 

 

A EXPANSÃO DE MOLESME

Um dia, o bispo de Troyes, Hugo II de Dampierre, de passagem por Molesme com numeroso séquito, foi recebido com pão seco, a única comida que os monges se podiam permitir naquele momento. O prelado ficou edificado e, profundamente impressionado, manteve desde então uma amizade generosa para com eles. A sua liberalidade redobrou quando soube que, apesar dos donativos que lhes fazia, se viam obrigados a mendigar e, para encontrar o necessário, chegavam mesmo a bater à porta do seu paço episcopal. Por recomendação do generoso bispo, os senhores de La-Ferté-Loupière doaram-lhes terras de lavradio e as igrejas de Flacy e Senan, em Senonais. Estas doações permitiram a erecção dos priorados dos mesmos nomes. Em 1081, o mais tardar, fundou-se um priorado em Vaucouleure, no condado de Champagne, graças à doação de um terreno feita por Godofredo II o Velho, senhor de Joinville. Nessa mesma data nasceram os priorados de Radonvilliers, no condado de Brienne, e o Sèche-Fontaine, no condado de Bar-sur-Seine. A expansão através da fundação de priorados demonstra bem que o regime em vigor era o de Cluny. Uma irradiação espiritual crescente acompanhava a proliferação da jovem abadia.

 

Depois da morte do bispo de Troyes, o bispo de Langres, Reinaldo Hugo, tomou como obrigação proteger os seus monges e ajudá-los a continuar a sua expansão benfeitora. Em 1083, lançou a seus vassalos e amigos um apelo ao sentimento do dever, autorizando-os a doarem aos monges igrejas e outros bens "eclesiásticos" que possuíssem. O duque Odo I de Borgonha foi o primeiro de uma série de benfeitores. Dotou a abadia com uma igreja situada em Loucame, Lassois, que se tornou num novo priorado. O número de filiações ascendia a oito quando, em 1084, o bispo Reinaldo Hugo faleceu e foi substituído por Roberto de Borgonha, irmão do duque. Este bispo desempenhará um papel importante na vida do nosso santo fundador. Os dois Robertos morrerão no mesmo ano, 1111, como amigos e irmãos em são Bento. De igual modo, o duque Odo I continuará em estreita relação com Molesme, onde terá várias vezes a sua corte feudal. Será o doador e o protector indispensável em 1098.

 

Um tal prestígio explica que, em 1085, Molesme se tenha tornado numa abadia poderosa e rica. A natureza dos donativos prova que o ideal em vigor antes de 1080 tinha dado lugar aos costumes de Cluny, que ignoravam o trabalho manual como meio de subsistência, o que exigia uma economia baseada na aceitação de igrejas, a fundação de "celas" e priorados.

 

Uma SANTA nostalgia

Enquanto prosseguia o ritmo das fundações, uma luta silenciosa se travava no plano espiritual. Devia em breve manifestar-se, e durante longos anos, através duma corrente de reforma e restabelecimento da disciplina.

 

Os testemunhos a propósito do relaxamento da observância são imprecisos; convergem, no entanto, num modo de ver que os concilia e encaixa nas circunstâncias. O biógrafo de Roberto denuncia um entibiamento escandaloso do fervor, chegando mesmo a dizer, ao falar dos monges de Molesme: «Era como se os vícios saíssem de seus corpos demasiado bem nutridos». É possível que o autor se deixe levar pela tentação de ilustrar o seu relato com uma imagem bíblica tirada dos salmos, pensando que está permitido sacrificar a objectividade do juízo ao prazer de oferecer um pouco de descontracção ao leitor, habituado, por outro lado, a esse estilo. A Summa Exordii (ou Exordium Cistercii) atesta que, em Molesme, mesmo preocupando-se muito pouco pelas prescrições de são Bento, nunca se deixou de viver santamente. Esse escrito explica a mitigação da observância pela riqueza que se tinha introduzido na abadia. Elogia a pobreza, mãe de todas as virtudes, própria para gerar homens fortes; ela fora banida de Molesme com a sua família espiritual devido ao aumento dos bens materiais. Do seu ponto de vista jurídico e histórico, o Exordium Parvum exprime-se em termos sóbrios e adaptados ao seu objectivo, que era o de formular o motivo da reforma cisterciense: em Molesme, os monges não observavam a Regra da sua profissão. O Exordium Magnum, finalmente, vê a causa do desequilíbrio nas mitigações adoptadas ao longo dos séculos e tornadas legítimas por vários concílios, sobretudo pelo de Aix-la-Chapelle em 8165.

 

Certamente cada um destes testemunhos contém a sua parte de verdade. Para discernir o seu justo valor e poder conciliá-los, precisamos de ter presente a vontade de regularidade que animou sempre o santo abade Roberto e que se comunicou, como por osmose, a uma parte da comunidade. No entanto, naquele momento, as coisas não estavam ainda no ponto a que chegariam em 1098. Antes disso era-se necessária uma evolução notável, unida às circunstâncias históricas; vamos procurar descrever as suas etapas principais.

 

 

SÃO BRUNO E

A CARTUXA

Uma primeira tentativa de reforma, de um género especial - não vai ter em comum com as que se lhe seguiram senão algumas circunstâncias de tempo e lugar - veio à luz em 1082-1083. Trata-se da tentativa realizada por Mestre Bruno de Reims de fundar um instituto.

 

Ao procurar uma solidão perfeita onde começar a sua fundação monástica, e querendo aliar as austeridades do deserto com as vantagens da vida em comum, Bruno dirigiu-se ao abade Roberto de Molesme. Este encontro deu origem a uma amizade perdurável entre os dois homens de Deus, e entre Roberto e Lamberto, discípulo de Bruno, que foi mais tarde abade de Pothières, na proximidade de Molesme.

 

Depois de Bruno passar uma estada prolongada em Molesme, então em plena crise, Roberto pôs à sua disposição o novo priorado de Sèche-Fontaine. Com a ajuda de alguns discípulos, Bruno começou a construção, nesse local, de uma igrejinha e celas para os solitários. No entanto, sendo exigida, nessa nova Ordem monástica, uma economia baseada na exploração indirecta de terras que ele não podia esperar reunir à sombra duma abadia como Molesme, em plena expansão, Bruno compreendeu depressa que não poderia ter êxito naquele local. Graças à mediação de Séguin, abade de La Chaise-Dieu, obteve do bispo de Grenoble a oferta do ermo denominado Cartuxa. Séguin chegou a ter dificuldade em persuadir Bruno de que aceitasse aquele ermo tão austero e afastado. Por outra parte, o sítio revelou-se de tal modo insalubre que, ao cabo de alguns anos, foi preciso transferir o mosteiro alguns quilómetros mais abaixo, no vale em que se encontra actualmente a Grande Cartuxa.

 

Depois da sua partida para a Cartuxa, Bruno teve o cuidado de mandar acabar as construções em Sèche-Fontaine, lugar que ele queria conservar para uso dos seus solitários. Semelhante conduta prova bastante como ele gostava do ermo próximo à abadia ligonesa.

 

À observância tolerante de Molesme e seus contactos frequentes com o mundo, opuseram os Cartuxos um isolamento rigoroso que recusava qualquer relação não indispensável com o exterior. Adoptaram um género de vida pobre e simples, todo de oração e silêncio.

 

Foram buscar vários elementos ao regime cluniacense: em primeiro lugar, a expansão por priorados, o que facilitava a procura dum sistema económico mais forte à abadia central e a simplificar a administração temporal nas filiações. Depois, a exploração das terras de lavoura por rendeiros. Recusaram a doação de igrejas e altares já que isso iria obrigá-los a exercer um ministério junto dos fiéis.

 

 

O ERMO DE AUX

Quando, em 1083, Bruno se despediu de Molesme e de Sèche-Fontaine, começava a haver, no seio da comunidade de Roberto, uma certa fermentação dos espíritos. O exemplo de Bruno não pôde deixar de ter influência sobre os piedosos cenobitas. Alguns de entre eles, entre os quais o próprio Roberto, tinham saudades da pobreza e do fervor dos primeiros anos, e sonhavam com o restabelecimento da disciplina, especialmente do trabalho manual. O abade dedicava-se a levantar o nível espiritual da sua comunidade que adoptara um género de vida demasiado fácil e tinha até aceitado certas práticas abusivas contrárias à observância cluniacense novamente introduzida.

 

Esta regressão é, em parte, desculpável: as repetidas saídas de grupos de monges para os novos priorados, sob a direcção de pessoas de valor, podiam, para já, concorrer para abrandar o impulso da comunidade assim empobrecida. Mas sobretudo é preciso ter em conta este facto: os monges de Molesme acabavam de trocar as primitivas austeridades pelos costumes mais fáceis de Cluny. Voltar atrás tornava-se para eles particularmente duro. Parecia-lhes suficiente, ao ouvi-los, ajustar-se à observância de Cluny honestamente seguida noutros mosteiros; mas, na prática, foram incapazes de se manter nela.

 

No fim de alguns anos, Roberto teve de capitular perante esta incapacidade. Acreditando que a sua salvação eterna estava em perigo, foi juntar-se a um pequeno grupo de eremitas estabelecidos em Aux, local onde mais tarde as monjas de Jully possuiriam uma propriedade denominada Blanchevaux. Esses monges, de feição cartusiana, tinham introduzido o trabalho manual e levavam, em conformidade com este modesto meio de subsistência, uma vida simples e pobre, quadro ideal de toda a virtude

 

Entretanto, em Molesme, a ausência do abade não foi nada favorável ao progresso, nem mesmo à manutenção da vida espiritual assim como da material. A sua personalidade prestigiava o mosteiro em relação aos benfeitores e outros vizinhos com os quais ele tinha tido de tratar por ocasião dos actos oficiais, e também em relação aos abades das redondezas aos quais o uniam laços de amizade. Os próprios monges, que não tinham querido segui-lo nas suas tentativas de restabelecimento da observância, mas a quem Roberto tinha conseguido manter num fervor relativo, pareciam prender-se à sua pessoa e reconhecer o seu ascendente humano e espiritual, embora fosse demasiado tarde. Apoiados pelo bispo Roberto de Borgonha, vieram suplicar ao abade que voltasse ao seu mosteiro. Mas o seu dever era claro e tinha a consciência segura: não podia renunciar ao estado de vida abraçado depois de tanta reflexão e lutas, nem retomar a responsabilidade de monges que tinham recusado a conquista paciente e fiel dum ideal monástico puro.

 

No entanto, os monges, fortalecidos com o apoio do seu bispo, não se deixaram desencorajar e solicitaram uma ordem papal. Esta diligência foi um êxito a favor deles. Uma carta de Urbano II (1088-1099) constrangia Roberto a retomar o báculo abacial em Molesme. Depois de uns cinco anos de ausência, provavelmente em 1094, Roberto empreendeu o regresso a Molesme. Era a segunda vez que uma ordem papal lhe impunha uma obediência especial em Molesme. Esperava-o uma terceira.

 

Estas atitudes pontifícias confirmam o crédito e a estima de que Roberto gozava junto dos seus e dos grandes da região, e ajuda-nos a tomar consciência do que era este homem aos olhos dos seus contemporâneos: um monge autêntico, um atleta da vida monástica, um verdadeiro santo.

 

 

NOVA TENTATIVA DE REFORMA EM MOLESME

De regresso a Molesme, Roberto, sempre repleto do mesmo zelo, lançou-se novamente à restauração da disciplina. Em breve, alguns de seus filhos o seguiram nessa tarefa. Entre os mais fervorosos, um inglês, chamado irmão Estêvão, aceitou com entusiasmo os objectivos do seu abade. Relativamente jovem - naquele momento talvez tivesse trinta e cinco a quarenta anos -, tinha tido ocasiões excepcionais de enriquecer os seus conhecimentos e adquirir experiência no que toca à vida monástica. Mais adiante voltaremos a isso, quando tratarmos do período do seu abadiado. Destinado pela Providência a ser abade de Cister e organizador da Ordem cisterciense, deu provas, desde muito cedo, de que o seu entusiasmo não era efémero nem superficial. Segundo o seu compatriota, Guilherme de Malmesbury, foi ele quem primeiro fez surgir a ideia de uma fundação tal como se fez em Cister. Basta-nos este testemunho para deduzir que Estêvão teria desde muito cedo concebido um plano de reforma que valia a pena ser discutido. De facto, este mesmo escritor, contemporâneo de Estêvão, a quem provavelmente contactou, afirma que as linhas gerais e alguns pormenores pontuais desse plano foram debatidos diante da comunidade reunida. Este costume de consultar a comunidade,  como estabelece a Regra de são Bento, foi muito aplicado à continuação.

 

Pouco a pouco, alguns pontos da Regra caídos em desuso foram reintroduzidos. A reforma começava. Entre os primeiros e mais fervorosos animadores da nova corrente, encontra-se o monge Alberico, que foi nomeado prior claustral em Molesme, provavelmente entre 1094-1095.

 

VIAGEM DE ROBERTO

A FLANDRES

Precisamente nessa altura, Roberto empreendeu uma longa viagem a Flandres. O solo fértil dessa região, a aplicação ao trabalho por parte dos seus habitantes, a prudência dos seus governantes pacíficos e a caridade cristã que ali se praticava fazia dela o refúgio dos que se encontravam em necessidade. Roberto foi até lá no intuito de restabelecer o estado económico da sua abadia, notoriamente comprometido durante a sua estada em Aux. Esta viagem redundou em várias doações de igrejas e de outros bens, e ainda o estabelecimento dum novo priorado em Cohen, na Thérouanne.

 

Era também um país em que o movimento monástico conhecia centros importantes. Roberto não pôde deixar de contactar com várias abadias, fundações e tentativas de reforma. Por isso, visitou a abadia de Saint-Vaast-là-Haut e a de Saint-Martin de Tournai, situadas no caminho. Talvez tenha subido até Afflighem. Em todo o caso, haverá mais tarde relações frequentes entre estas três abadias e a de Cister.

 

Entre os monges fundadores de Cister, dois eram oriundos da cidade de Arras. À volta do ano de 1124, Estêvão irá também visitar a abadia situada junto dessa cidade.

 

Desde 1094, Saint-Martin de Tournai tinha adoptado costumes cuja inspiração procediam da mesma corrente que em breve se vai encontrar em Cister: rigor na clausura, pobreza unida à obrigação do trabalho manual, rejeição de alguns bens como os dízimos, que eram considerados de direito para os clérigos, não para os monges, supressão de todo o supérfluo na comida e até na liturgia, admissão de convertidos de qualquer condição, supressão do instituto das religiosas começado no ano anterior, predilecção pela solidão que preserva o monge do barulho e das distracções do mundo. A generosidade desmedida do abade Odo e o fracasso da fundação das monjas tinham provocado uma crise financeira. Foi esta a ocasião de abandonar a reforma apenas começada, para retomar os costumes tradicionais. Esta experiência devia ser rica em ensinamentos para quem quer que sonhasse, nesse momento, numa reforma da observância monástica.

 

Os fundadores de Afflighem tinham também eles começado, sob a influência do pregador errante Wéry, a pôr em prática um ordo monasterii cujo espírito se aproximava daquele que animaria mais tarde a reforma de Cister. Procuravam a solidão, praticavam a esmola e a hospitalidade, faziam trabalho manual para ganhar a vida e evitavam o luxo, mesmo no culto divino. O Exordium Affligemense, redigido por volta de 1122, portanto pouco depois do Exordium Parvum de Cister, assemelha-se, em diversos pontos, a este. Sem dúvida os seus autores conheceram-se e o de Afflighem deve ter tido diante dele o trabalho do seu confrade e amigo de Cister.

 

 

FAMÍLIA DIVIDIDA

Durante a viagem de Roberto, as discussões entre os irmãos de Molesme a respeito das restauração da disciplina e da possível introdução duma reforma radical, tinham-se envenenado e degenerado em disputas. Houve um momento em que a tensão entre os dois partidos foi tão viva que os adversários da nova observância, recordando que um dos artigos dos usos de Cluny os autorizava a usar de violência contra qualquer perturbador da ordem estabelecida, apoderaram-se do seu prior Alberico, bateram-lhe e prenderam-no.

 

Este acontecimento, tão vergonhoso como foi, é também explicável quando se pensa na rudeza de costumes daqueles tempos da Idade Média. As pessoas estavam habituadas a acções igualmente brutais. Denotava, no entanto, um espírito de oposição irredutível. Os autores de tais sevícias entretinham-se sem dúvida com raciocínios deste género: não enviou o próprio são Bento à Gália o seu discípulo Mauro autorizando-lhe todas as adaptações necessárias em matéria de alimentação e de vestuário, ao clima e aos costumes do país? A tradição adaptada aos lugares, praticada por grandes monges não parecia mais venerável do que as práticas dos Padres do deserto, que se entregaram aos jejuns e trabalhos manuais não por princípio mas por necessidade? É imprudente, diziam os opositores, impor um jugo intolerável ou prejudicial à saúde, e é desumano fazer sofrer alguém, em tempo de paz, o que os perseguidores faziam sofrer aos mártires da fé.

 

Impossível fazer compreender a esses monges, cuja maioria não conhecia senão os costumes de Cluny, que podia existir um género de vida mais perfeito e mais autenticamente beneditino.

 

De regresso ao seu mosteiro, Roberto procurou acalmar os ânimos. Favorável à reforma, compreendia no entanto que ele não podia forçar ninguém, segundo o dito de são Bento: «não suceda que, por demasiado querer raspar a ferrugem, se venha a quebrar o vaso» (Regra, c. 64). Deixou que continuassem as duas observâncias. Mesmo que elas não se enfrentassem abertamente, causavam na comunidade um mal-estar e o espírito de família estava ausente.

 

 

AULPS

Em 1097, o movimento reformador produziu um fruto maduro. A "cela" de Aulps, fundada outrora por Molesme e sempre sob a sua dependência, foi elevada a abadia. O motivo desta decisão não foi senão a vontade dos monges de Aulps de passarem para uma observância mais conforme com a Regra de são Bento. Ora a Regra não conhece priorados, antes os exclui, porque, em cada página, fala de um abade que dirige a comunidade como um pai, formando os seus filhos no estado adulto da vida religiosa, gozando de uma autonomia unicamente limitada pelo direito do bispo.

 

As outras determinações deste acto procedem ainda do regime cluniacense: as honras a prestar ao abade de Molesme em visita a Aulps, o seu poder de corrigir, eventualmente depor um abade-filho e substitui-lo escolhendo o sucessor entre os monges da abadia-mãe, a faculdade de reduzir a abadia à categoria de "cela" se viesse a relaxar-se, todos estes pormenores estão calcados do regime constitucional de Cluny6.

 

Mas o motivo alegado estava carregado de sentido e fecundo em consequências. Continha o gérmen da futura constituição cisterciense e como que o princípio da reforma. De facto, o projecto de observar integralmente a Regra de são Bento, aliado à rejeição de priorados, levaria logicamente à possibilidade duma vida totalmente nova baseada na Regra, e à extensão da Ordem pela fundação de abadias.

 

Quanto às observâncias, temos de cair na conta de que o sistema de priorados não se coadunava com o espírito da Regra por ser nefasto à disciplina monástica. Uma direcção ao mesmo tempo firme e paternal, como a exige o Patriarca dos monges do Ocidente, requer para o superior local um mínimo de autonomia e de estabilidade. Nomeado ou revogado por um abade ausente, um prior ou superior de "cela" não podia conhecer suficientemente os filhos que lhe eram confiados e estes, por sua vez, tinham necessidade de eleger o seu próprio "pai", que teria direito à sua confiança e dedicação filial. Uma família monástica não é uma residência de missionários. Supõe igualmente a regularidade dos exercícios de comunidade, bem equilibrada e fielmente observada. Ora, o vaivém entre priorados ou "celas", rendeiros, cortes e castelos por ocasião dos dízimos a receber ou a pagar, as corridas para Cluny para as profissões e os diversos interesses materiais ou espirituais, impediam praticamente qualquer estabilidade e regularidade de observância. Pensemos, além disso, nos regulamentos de Cluny que impunham aos monges intermináveis salmodias e funções litúrgicas. Quem quisesse reabilitar integralmente a vida beneditina tinha de se enfrentar com o regime constitucional de Cluny assim como as suas observâncias. E isso não era coisa fácil.

 

Fundar uma abadia era, naquela época, uma empresa difícil. Em primeiro lugar, uma abadia devia ser sui juris por definição e segundo o único direito existente então, sem laços de dependência com a abadia-mãe. Já não havia, portanto, laço jurídico entre as fundações, que podiam multiplicar-se, e a casa-mãe. Mas há mais: as novas abadias, para poderem tratar em seu nome com os seus fundadores leigos e os bispos, tinham de obter um privilégio de Roma. Mas para Roma conceder tais privilégios à margem do direito vigente ou em oposição a ele, não seria abrir uma brecha na boa ordem, prejudicar a conservação da disciplina? A partir de 1100, o papa Pascoal II, a fim de evitar que as abadias isoladas se multiplicassem, proibiu a erecção de priorados em abadias. Antigo monge cluniacense, este papa viria a conhecer as preocupações dum abade de Cluny pelas suas filiações. Aulps, elevado a abadia antes da eleição de Pascoal II, tinha escapado a esta proibição.

 

Pormenor significativo e esclarecedor: os três signatários, da parte de Molesme, da acta de fundação de Aulps eram Roberto, abade, Alberico, prior e Estêvão, secretário. Precisamente o grupo que, em breve, iria ter a iniciativa da fundação de Cister. Compreende-se que este acto, cujo princípio ia directamente no sentido do seu plano de reforma, representava para eles uma vitória. Deve tê-los encorajado a levar mais longe os seus projectos e, ao mesmo tempo, fazê-los perder a esperança de realizar a reforma onde estavam.

 

 

PRIMEIRO PASSO OFICIAL

Foi nestas circunstâncias e nesta atmosfera psicológica que os três futuras cabeças da reforma, depois de terem reunido quatro companheiros entre os mais zelosos, resolveram ir ter com Hugo de Die, arcebispo de Lyon e legado permanente do papa Urbano II. Porquê esta diligência junto do arcebispo-legado? Não, certamente, para escaparem à autoridade do seu próprio bispo, Roberto de Borgonha, visto que, à continuação, iriam estabelecer-se na mesma diocese. É possível que até lhe tenham pedido anteriormente a sua opinião. Devia-se unicamente ao facto de Roberto ter sido chamado a Molesme, por ordem papal, alguns anos antes. Desde então, só a autoridade do papa ou do seu legado podia anular uma tal medida. Os religiosos pretendiam, portanto, obter do legado Hugo a autorização pontifícia para partirem, dado que o empreendimento não tinha nenhuma possibilidade de êxito em Molesme. Hugo favorecia, com todas as suas forças, o movimento gregoriano. Eles sabiam-no e isso encorajava-os. Roberto de Borgonha, bispo de Langres, poderia ter autorizado a emigração dum grupo de fundadores, mas não podia permitir que Roberto fizesse parte dele.

 

Depois de escutar o relato das suas esperanças e dificuldades, o legado ficou absolutamente convencido de que lhes era impossível realizar os seus projectos em Molesme. Aconselhou vivamente os sete monges a deixarem o lugar e a procurar um novo local.

 

 

VIVICUS

Roberto podia, pois, partir para a fundação. Não o fez. Ter-lhe-ão seus filhos pedido que ficasse? Terá achado melhor fazer-se preceder por um pequeno grupo a fim de prepararem os edifícios e os terrenos? Seja o que for, não partiu, mas quatro dos seus monges dirigiram-se para Vivicus. Eram eles Alberico, Estêvão e dois outros cujos nomes não se indicam, mas que podem adivinhar-se com grande probabilidade na lista dos sete primeiros requerentes: Odo e João, situados entre o prior Alberico e o jovem Estêvão7. Esta saída não agradou de modo algum aos adversários da reforma. Alertaram o bispo, porque Vivicus estava também situado na diocese de Langres. O bispo ouviu as suas queixas e petições e deu o consentimento para que chamassem os fundadores. E, para dar pleno valor à sua ordem, acrescentou a ameaça de excomunhão no caso deles desobedecerem.

 

Porquê este apelo da parte dos irmãos? E porquê essa atitude do bispo? Os irmãos queriam, sem dúvida, fazer fracassar a todo o custo o empreendimento da reforma. Informado por eles, o bispo deve ter desaprovado a abstenção de Roberto. A diligência junto do legado, revertia em seu próprio desprestígio, já que fora unicamente em razão da presença de Roberto que os monges tinham prescindido da sua autoridade. Dado que o abade não fazia parte do grupo, o bispo teria sido competente para lhe permitir que se estabelecesse em qualquer parte fora de Molesme.

 

Visto que o bispo tinha o direito de lhes proibir estabelecer-se na sua diocese, obedeceram; visto que o seu propósito de abraçar uma vida mais perfeita escapava à sua competência, procuraram um outro meio para levá-lo à prática.

 

DECISÃO DO LEGADO

 

Os quatro fundadores de Vivicus não regressaram a Molesme senão para consultarem o seu abade e de trazê-lo com eles, assim como os dois irmãos que estiveram presentes na primeira audiência, em vista a uma segunda tentativa junto do legado. Hugo não estava em Lyon. Encontraram-no em lugar desconhecido, provavelmente em viagem pela sua arquidiocese. O assunto não sofreu qualquer demora. O legado recebeu-os amavelmente, escutou o relato da nova situação e despediu-os, munidos da seguinte carta:

 

«Hugo, arcebispo de Lyon e legado da Sé Apostólica, a Roberto, abade de Molesme e aos irmãos que desejam com ele servir a Deus segundo a Regra de são Bento.

 

«Queremos comunicar a todos aqueles que se regozijam com os progressos da nossa Mãe, a santa Igreja, que vós e alguns dos vossos filhos, irmãos do mosteiro de Molesme, vos apresentastes diante de nós em Lyon, e declarastes querer, de agora em diante, seguir de maneira mais estrita e mais perfeita a Regra do bem-aventurado Bento, que até aqui havíeis observado com tibieza e negligência naquele mosteiro.

 

«Mas, porque no lugar acima mencionado, numerosos obstáculos tornam este projecto efectivamente irrealizável, tendo em consideração a salvação das duas partes, isto é, daqueles que vão partir e daqueles que irão ficar, julgamos útil que vos retireis para um outro lugar que a generosidade divina vos indicará e onde podereis servir o Senhor duma maneira mais proveitosa e tranquila.

 

«Por conseguinte, a vós que estáveis então ali presentes: vós, Roberto, abade, e os irmãos Alberico, Odo, João, Estêvão, Letaldo e Pedro, e a todos os que decidais receber junto de vós, de comum acordo e em conformidade com a Regra, nós vos recomendámos, então, permanecer fiéis a este santo propósito. Exortamo-vos a que nele persevereis. E, em virtude da autoridade da Sé Apostólica, vo-lo confirmamos a perpetuidade pela aposição do nosso selo»8.

 

O legado estava satisfeito por ter concedido o que lhe pediam Roberto e seus companheiros, que ele recebera por duas vezes em audiência. Deu-lhes o apoio da sua autoridade e não contente de lhes ter outorgado a licença desejada, aconselhou-os, na primeira vez, a deixar Molesme e, na segunda, ordenou-lho claramente. Longe de demitir da responsabilidade do empreendimento, impôs aos monges o risco duma tal aventura ao dar-lhes a ordem formal de deixarem a sua abadia sem mesmo poderem saber onde estabelecer-se. Esta medida radical era legitimada, por um lado, pela obrigação de consciência que o legado reconhecia nos que a ele apelavam a fim de levarem uma vida monástica mais perfeita, e, por outro, pela impossibilidade devidamente constatada de realizarem esse ideal em Molesme.

 

No entanto, Hugo não se limitou a garantir-lhes a saída: a sua solicitude estendia-se igualmente, como ele bem compreendia, aos que achavam que o seu dever era permanecer onde estavam. A sua decisão equivalia praticamente a uma cisão da comunidade: Roberto ficaria abade do grupo que partia; o grupo que ficasse deveria eleger novo abade e fazer nas suas mãos a promessa de obediência, depois de terem sido eximidos da que os ligava a Roberto. Os que partiam tinham unicamente de transferir o seu voto de estabilidade de lugar e da comunidade de Molesme para Cister e para a sua nova família monástica.

 

 

ROBERTO E O GRUPO DOS FUNDADORES

O facto de Roberto fazer parte do grupo dos fundadores não tinha como única nem mesmo como principal consequência estas mudanças de profissão. Arrastava igualmente consigo - e isso era muito mais importante - todo o futuro do Novo Mosteiro e da nova observância. Na realidade, se Roberto tivesse ficado em Molesme, a fundação teria de ficar submetida à abadia-mãe, quer fosse como priorado quer como Aulps, o que não deixaria de ser uma solução defeituosa. Se queriam ter êxito, deviam fundar necessariamente uma abadia plenamente sui juris. A necessidade de fundar abadias com o fim de estender a observância seria mais tarde afirmada nas primeiras linhas da nova constituição, o que demonstra bastante a importância primordial desse estatuto, assim como da presença de Roberto entre os fundadores. Foi portanto com razão que o legado ordenara abertamente ao abade que se juntasse ao grupo dos que partiam.

 

Satisfeitos com o resultado obtido, os sete monges regressaram a Molesme para dar conta do passo dado e participar à comunidade a liberdade que lhes fora dada de irem com eles ou de ficarem. Os religiosos podiam pensar no compromisso que tinham assumido de observar fielmente a Regra e nas garantias que lhes oferecera a autoridade do legado que lhes dava a oportunidade de cumprirem esse compromisso; podiam considerar o interesse pessoal que o prelado manifestara pela reforma e como tinha confiado a sua orientação ao seu próprio abade. Outros catorze membros da comunidade decidiram-se a fazer parte do grupo dos fundadores.

 

Foram, portanto, vinte e um os que partiram, levando consigo apenas o estritamente necessário em paramentos litúrgicos e livros; despojados de qualquer apoio material não tinham, para levar a cabo a fundação, senão o abandonar-se à divina Providência, atitude que o legado tinha precisamente recomendado.

 

 

 

PROBLEMAS DE DATAS

Convém deter-nos no problema um pouco espinhoso das datas. O milésimo 1097 como data da elevação de Aulps em abadia, vem expresso na própria acta. A indicção9 IIII anotada no mesmo documento, parece estar em contradição com o milésimo, visto que ela corresponde ao ano 1096. Mas é preciso saber - e isto escapou a muitos autores - que a indicção não começa com o início do ano, mas a 25 de Setembro10. Por conseguinte, a indicção IIII refere-se ao ano que decorria entre o 25 de Setembro de 1096 e o 24 de Setembro de 1097. No entanto, é-nos dado um outro ponto de referência: a acta leva a data do nono ano do pontificado de Urbano II. Ora este decorreu  entre o 12 de Março de 1096 e o 11 de Março de 1097. É preciso, portanto, datar a acta no período que se estende desde 25 de Setembro de 1096 a 11 de Março de 1097. Mas, visto que o milésimo 1097 aparece marcado, temos de admitir que o acontecimento teve lugar antes do 11 de Março de 1097 e depois do 25 de Dezembro precedente, porque o conjunto destes dados não se concilia a não ser com o estilo "da Natividade" que faz começar o ano a 25 de Dezembro. Esta constatação vem confirmada pela data da fundação de Cister, também fixada mediante duas indicações que não se harmonizam a não ser que se admita o mesmo estilo. De facto, os Exórdios datam a fundação no ano "da Incarnação" 1098, e o Exordium Magnum precisa que era o dia 21 de Março, que coincidia com o Domingo de Ramos, pormenor que não se verifica senão na hipótese do estilo da Natividade.

 

A permanência em Vivicus durou um certo tempo, já que a Vita de Roberto relata que os quatro solitários foram dali despedidos "aliquanto tempore". Esta expressão pode compreender-se como alguns meses depois da sua chegada, a qual se deve ter dado durante o Outono de 1097 ou no começo do Inverno seguinte.

 

Podemos pois contar aproximadamente um ano entre o acontecimento de Aulps e a saída dos vinte e um monges de Molesme.

 

As duas audiências junto do arcebispo-legado Hugo devem ter tido lugar, uma no princípio da Primavera de 1097 e a outra no Inverno ou no começo da Primavera de 1098.

 

 

UM CÍRCULO DE BENFEITORES

A protecção do legado tinha ainda a vantagem de que, por seu intermédio, Roberto e os seus beneficiassem da insigne ajuda do duque Odo I de Borgonha. Outrora, em 1085, por recomendação de seu irmão Roberto de Borgonha, que acabava de ser nomeado bispo de Langres, o duque tinha demonstrado a sua benevolência para com Molesme. Esse gesto da sua parte era notável, porque o duque não se mostrava nada ou raramente interessado pelas abadias. Ávido de riquezas e de façanhas, chegou a ter épocas - quando faltava a ocasião para feitos de armas - em que ele, com os seus soldados, se entregavam à pilhagem, sem se privarem de roubar bispos e abades em viagem.

 

Certo dia, em 1097, soube que o arcebispo de Cantuária, santo Anselmo, encontrava-se de passagem pelos seus estados a caminho de Roma. Julgando que ia encontrar um copioso butim, o duque lançou-se ao seu encontro para se apoderar de todos os seus haveres. Esperava-o uma grande surpresa. A modéstia e a pobreza do equipamento, a afabilidade e delicadeza de trato por parte de Anselmo confundiram-no e, subitamente, pediu perdão dos seus maus intentos prometendo ao santo prelado assistência e protecção dando-lhe escolta até aos confins do seu ducado.

 

No regresso, o arcebispo inglês foi hóspede de Hugo de Lyon. A demissão que tinha pedido ao papa não fora aceite, e teria de esperar uma ocasião favorável para voltar a Cantuária. Gozou longamente da hospitalidade do legado. A sua permanência em Lyon deve ter ocorrido em 1098, por ocasião do estabelecimento dos primeiros cistercienses.

 

Uma outra personagem célebre, o bispo de Vienne, pôs a sua influência ao serviço da causa dos monges. Tratava-se de Guido, filho do conde de Borgonha, Guilherme o Ousado, e cunhado do duque, casado com a sua irmã Matilde. Guilherme de Malmesbury, que escrevia pelo ano 1120, testemunha-o com estas palavras: «Ali (em Cister) deram início à sua obra venerável, com o apoio do arcebispo de Vienne que é actualmente Sumo Pontífice». O próprio Guido de Borgonha se mostrou amigo e protector dos cistercienses até à sua elevação à Sé Apostólica e até mesmo depois da sua morte, como veremos mais adiante.

 

Finalmente, para completar as indicações que temos a respeito do círculo de amigos e benfeitores da fundação, mencionemos o conde de Beaune, que fará parte do primeiro grupo de dadores, e que era provavelmente da família de Roberto.

 

É evidente que as diligência junto deste grupo dos amigos foram feitas pelo abade Roberto. Segundo Bernardo de Brito e A. Manrique, fez-se acompanhar e assistir por Estêvão, que já conhecemos como seu secretário e que possivelmente terá atraído a atenção de Anselmo de Cantuária pela sua nacionalidade. Aqueles dois historiadores oferecem o texto de duas cartas, das quais uma, dirigida ao duque, terá sido escrita por Estêvão em nome do seu abade, e a outra seria a resposta do duque. Mas não podemos ter estas cartas como autênticas: o estilo e os títulos que nelas se empregam não se coadunam com os costumes da época. Além disso, o objectivo da carta do duque, que prometera ganhar os bispos dos seus estados e o papa para a causa de Roberto, é absolutamente inverosímil, já que, de acordo com o relato oficial, são o legado do papa e os bispos os que pediram a ajuda do duque.

 

A FUNDAÇÃO

 

O primeiro e maior benfeitor da fundação foi, no plano material, Odo I, que persuadiu o seu vassalo, o visconde Reinaldo de Beaune, a ceder aos monges uma terra em arroteamento, no local chamado "Cistellum". Esta terra fazia parte do património de Hodierna, esposa do visconde. É importante notar que se tratava de um alódio, quer dizer, uma propriedade isenta de qualquer direito feudal ou de rendas. Numa primeira acta, Reinaldo cedeu uma extensão bastante grande para a construção dos lugares regulares e suas dependências, assim como terras de lavoura ou de arroteamento que os monges precisavam para viver. Uma segunda acta confirmava a precedente acrescentando a doação - sob forma de abandono absoluto - de um oratório existente no lugar. Os monges recusaram aceitar o "donativo" duma igreja, a fim de evitarem o reconhecimento implícito do direito dum leigo à posse e à doação duma igreja. Aceitando estes pontos de vista, Reinaldo declarou não ter qualquer direito sobre o lugar sagrado que ele reconheceu pertencer unicamente a Deus, permitindo assim aos monges tomar posse dele como se fossem primi occupantes. A doação foi completada por uma terceira acta que teve por objecto ceder aos monges a propriedade por inteiro, com o encargo de deixarem o usufruto de uma parte da terra de lavoura a dois servos e uma serva; o terreno necessário à sua subsistência seria delimitado pelo visconde, pela sua mulher Hodierna, caso ela quisesse ocupar-se disso, e pelo abade Roberto, a uma distância considerável das terras exploradas pelos monges. Os três servos ficavam submetidos ao visconde, não aos monges, que teriam certamente recusado qualquer espécie de estipulação desse género como contrária aos seus princípios. Esta extensão do primeiro donativo devia-se em realidade ao duque, que a obtivera do visconde ao oferecer-lhe uma indemnização: uma renda anual de vinte solidi (soldos de ouro), e licença concedida, a ele e as seus filhos, de plantarem vinhas, nos seus domínios, em todo o terreno que lhes fosse possível cultivar.

 

Todas estas doações foram confirmadas, tal como o exigia o direito da Igreja, em mãos do bispo do lugar, Gualtério de Chalon, no dia da primeira dedicação da igreja. No mesmo dia, Odo fez uma nova doação concedendo aos religiosos licença de pesca, caça, pastagem e corte de madeira no seu domínio perto da abadia. O conjunto destas disposições devia assegurar aos monges a posse tranquila destes privilégios, a isenção de qualquer intromissão de poder secular e uma tranquilidade perfeita, condição indispensável para uma vida totalmente dedicada a Deus, segundo a Regra beneditina.

 

De uma bondade inesgotável, o duque doou ainda ao Novo Mosteiro - era o nome que se dava à fundação - gado, equipamento e tudo o necessário para o acabamento da construção em madeira; além disso, ele próprio se encarregou de prover a todas as suas necessidades por muito tempo.

 

Não se sabe em que momento exacto teve lugar a dedicação do oratório e a elevação a abadia. Presididas pelo bispo, estas duas solenidades puderam ter ocorrido no mesmo dia, visto que o oratório já existia à chegada dos fundadores. Podemos conjecturar também que ambas coincidiram com a confirmação das doações em mãos do bispo. Todos esses actos oficiais não podem ter tardado muito tempo depois da chegada a Cistellum, porque era preciso que o abade fosse instalado canonicamente pelo seu Ordinário e que os monges fizessem sem tardar a sua estabilidade no novo lugar e na nova comunidade.

 

Um último acontecimento marca a fundação propriamente dita: num dia de Natal, o duque fez uma doação importante em mãos de Roberto, a saber, uma vinha situada em Meursault. Era o dia 25 de Dezembro de 1098, a única festa de Natal que Roberto passaria em Cister11.

 

Veremos como, na realidade, o fundador teria em breve de sacrificar o lugar que tão bem respondia às aspirações de toda a sua vida e aceitar separar-se de seus filhos que partilhavam plenamente do seu ideal, das suas alegrias e penas.

 

 

NOVA CRISE EM MOLESME

Enquanto se iniciava a fundação, em Molesme fora eleito, pelos irmãos, um novo abade, e a vida quotidiana decorria segundo os costumes tradicionais. As duas comunidades pareciam perfeitamente resignadas à cisão levada a cabo pelo legado. Mas esta paz não durou muito tempo. Foi perturbada de uma maneira que, aparentemente, ninguém prevera.

 

Enquanto os Cistercienses gozavam do favor dos grandes, tanto prelados como senhores, e o seu estilo de vida causava admiração em todos, e as coisas temporais pareciam asseguradas e as espirituais se viam estimuladas pela entrada de numerosos postulantes, Molesme, a rica e poderosa abadia de outrora, via, pelo contrário, diminuir o seu prestígio devido à partida de seu santo abade e de vários dos seus membros  conhecidos pela sua virtude, talentos e linhagem. Os monges sentiam-se acabrunhados, os vizinhos e amigos desolados. Não havia dúvida de que estes últimos tinham perdido a confiança  na nova administração dos bens da abadia: talvez os dízimos que eles recebiam dela lhes parecessem demasiado inferiores às expectativas alimentadas. Falavam da abadia com sarcasmo e mostravam-se cada vez mais hostis. Um deles, Guilherme II, conde de Nevers, quer fosse por se ter deixado enfrascar por todos estes rumores, quer por ter querido exercer pressão reconhecida como legítima fazendo valer o seu "direito de incêndio", pegou fogo a uma dependência da abadia. Foi como lançar a agitação num galinheiro. Com isso, trouxe o assunto a plena luz e foi tomado em consideração.

 

Os religiosos de Molesme diziam-se injustamente tratados pelos seus co-irmãos e lançavam sobre eles a responsabilidade dessas desventuras. Como se eles se quisessem vingar e afastar de si a irrisão, não pouparam nenhuma ocasião de denegri-los e contrariá-los. A fim de restabelecer a boa ordem no interior do mosteiro e a paz com os vizinhos, a fim de recuperarem também a sua prosperidade material, recorreram ao bispo, suplicando-lhe que empregasse toda a sua influência para que "o seu abade" Roberto lhes fosse restituído. Veremos mais adiante como eles queriam ao mesmo tempo fazer fracassar a reforma, porque já desde esse momento, eles deviam saber que, sem a direcção de Roberto, ela corria um grande risco. Mas não é possível admitir que o bispo, irmão do duque recentemente convertido e interessado na fundação, tenha tido pessoalmente a intenção de ajudar a derrubar a obra começada, o que, por outra parte, seria contrariar as disposições do seu arcebispo-legado. Mas ele devia, a todo o custo, salvar Molesme e arriscar um golpe de ousadia.

 

A única possibilidade de sucesso era recorrer a Roma. O bispo Roberto de Borgonha, apesar do seu parentesco com o duque e o seu dever de dependência em relação ao legado, apoiou esta diligência dos monges que tinham delegado em dois ou vários de entre eles. Chegaram por volta da Páscoa que, em 1099, caiu a 16 de Abril. No dia 24, tinha lugar a abertura de um concílio presidido pelo papa Urbano II. Rogaram instantemente ao papa e aos cardeais que Roberto lhes fosse restituído como abade, oferecendo-lhe um relato circunstanciado da sua lamentável situação. Insistiram de uma maneira insólita, como atesta o papa ao escrever ao seu legado que eles reclamavam o "seu abade" "vehementius", isto é, com uma forte instância. O pontífice acrescentava, como desculpando-se perante o legado, que ele se via obrigado, e até forçado, pelos irmãos cardeais - coacti tandem - a ouvi-los favoravelmente. Convidava-o a examinar a possibilidade de regresso de Roberto a Molesme e de levá-la a efeito, se fosse esse o caso. Na alternativa contrária, incumbia ao legado «velar para que os que vivem na solidão (de Cister) possam continuar nela em paz, e os que estão no mosteiro (de Molesme) observem os costumes regulares»12.

 

Perante esta atitude reservada e um pouco indecisa do Soberano Pontífice, o legado julgou que seria imprudente não tomar responsabilidade no assunto. Mais do que o papa, devia temer as reacções da parte que poderia sentir-se lesada, qualquer que fosse a decisão. Convocou a conselho alguns virus autenticos, personagens oficiais, a fim de deliberarem sobre as medidas a tomar.

 

 

REUNIÃO EM

PONT-D'ANSELLE

Como vem indicado no relato oficial13, a conferência teve lugar em Port-d'Anselle. Estavam presentes vários superiores diocesanos e religiosos. Faltava um dos dignatários mais interessados: o bispo de Langres, Roberto de Borgonha. Porque estaria ausente? Nenhum texto no-lo diz. Sendo o facto, em todo o caso, surpreendente, pode pensar-se razoavelmente que talvez se tivesse sentido humilhado de não poder resolver um problema que, em circunstâncias normais, dependeria da sua autoridade. Além disso, tendo outrora obtido o regresso de Roberto da fundação de Aux, temia ver-se defraudado na sua expectativa ao pedir, por segunda vez, o mesmo favor ao mesmo papa. Mesmo que as diligências fossem correctas desde o ponto de vista do direito, isso não o impedia se sentir-se incomodado ao constatar que elas tinham vindo a parar ao tribunal do legado que ele quisera evitar ao apelar directamente a Roma. Contentou-se, por isso, com fazer-se representar pelo novo abade de Molesme, Godofredo e alguns monges dessa abadia, tanto ou mais interessados do que ele no desfecho do processo e não menos capazes de oferecer um relato exacto sobre a sua situação e uma queixa convincente.

 

A data desta assembleia não deve ter sido senão o mês de Maio ou princípios de Junho de 1099. De facto, o legado não podia ter comunicação da carta papal senão depois do concílio de Roma, tido no fim de Abril. O papa que a escrevera morreu a 29 de Julho seguinte, e nesse dia devia expirar normalmente o mandato recebido, como aliás o alto cargo de legado. A decisão tomada em Port-d'Anselle dizia que um breviário levado de Molesme pelos fundadores, devia ser devolvido à abadia de origem, pela festa de são João, quer dizer, a 24 de Junho. Se o breviário não tivesse que ser devolvido senão a 24 de Junho de 1100, isso constaria no texto. Mas também tanta demora teria sido excessivamente longa. Em contrapartida,  a demora entre a conferência e o São João de 1099 parece-nos muito breve. No entanto, não demasiado, já que o trabalho dos copistas era feito em equipa: um deles encarregava-se da preparação do pergaminho, outro de traçar as linhas para marcar as margens e intervalos, preparar as tintas, afiar as penas, etc.

 

 

O REGRESSO DE ROBERTO A MOLESME

A sorte de Roberto ficou decidida na reunião de Port-d'Anselle: deveria regressar a Molesme. O relatório dirigido ao bispo de Langres faz-nos saber como se desenrolaram as discussões e o que delas resultou. Este documento precioso ajudar-nos-á a pôr de parte as versões tendenciosas dadas por alguns autores a propósito da conduta de Roberto. Porque certos autores antigos e modernos, seduzidos quer por preconceitos calvinistas quer por rumores que revelam invejas mesquinhas entre monges, acusaram o fundador de Cister de fraqueza e cobardia e até de infidelidade às suas obrigações tanto para com os seus filhos como para com Deus. Para os que assim pensam, a reunião de Port-d'Anselle foi como "o processo de Roberto". É fácil demonstrar como estas acusações são desprovidas de fundamento sério.

 

Conduzidos pelo seu abade Godofredo, eleito após a saída de Roberto para Cister. Os  monges de Molesme compareceram diante do júri composto pelo legado, por alguns bispos e abades e outras personagens notáveis da região. O bispo estava ausente, tendo-se contentado com apresentar uma recomendação escrita que os monges entregaram ao legado. A sua petição unânime era urgente e não tinha senão uma solução: obrigar Roberto a regressar a Molesme. A alternativa apontada pelo papa parecia, portanto, inútil, já que os próprios interessados a tinham inviabilizado a favor da única solução possível. O abade Godofredo mostrou-se pronto a ceder o seu cargo a Roberto.

 

Tendo tomado conhecimento do que eles tinham exposto e lido de novo a carta de Urbano II, o legado e seus conselheiros acharam dever resignar-se aos factos e ao estado em que estavam as coisas. Concederam, pois, aos monges, o objecto das suas instâncias: o regresso do "seu abade". Mas fizeram-no com a condição de que Roberto abandonasse todos os seus direitos sobre Cister, e que a cruz abacial de Cister fosse entregue em mãos do bispo de Chalon. Esse gesto simbólico tinha como significado e efeito real que Cister permanecesse abadia, e que o bispo presidiria nela uma nova eleição abacial, de acordo com o direito canónico. De imediato, o bispo de Chalon deveria desligar Roberto das suas obrigações para com a sua pessoa e diocese, incumbindo a Roberto, por seu lado, desligar os monges de Cister dos votos que os uniam à sua pessoa. No entanto, aqueles que, de entre eles, manifestassem esse desejo, teriam licença de seguir o seu abade no caminho de regresso e de serem religiosos em Molesme. Foi decidido que, à continuação, a passagem entre as abadias não se faria senão de acordo com as prescrições da Regra, como é de rigor entre abadias independentes.

 

Mais uma vez, o legado Hugo tinha salvado a reforma conservando à fundação o privilégio de abadia. No futuro, existiria ao lado da abadia de Molesme sem nenhum laço de dependência. Foi ainda estipulado que, se alguma vez Roberto viesse a deixar Molesme – “solita levitate”, como tinha acontecido mais de uma vez - Godofredo retomaria o seu cargo, salvo opinião contrária tanto do legado como do bispo e do próprio abade Godofredo.

 

Com a sua autoridade apostólica, o legado ordenou ao bispo de Langres que recebesse afavelmente o abade Roberto e procedesse à sua instalação como abade. Se bem que o bispo não pedisse mais, essa ordem devia ser expressa por escrito, já que o procedimento seguido não era o comum, e o seu valor vinha-lhe do poder supremo da Igreja representado pelo legado.

 

Apesar dos livros e paramentos litúrgicos levados de Molesme, ficou estabelecido que tudo ficaria em Cister excepto um breviário, como já dissemos.

 

O bispo Gualtério de Chalon e o abade Roberto fizeram como o legado lhes tinha ordenado. Roberto e alguns de seus filhos regressaram a Molesme. Roberto não tinha possibilidade de escolha e não se pode duvidar dos sofrimentos morais que lhe ocasionaria essa separação de uma obra que era o coroamento dos seus esforços constantes, e dos seus filhos que o tinham compreendido e partilhado dos seus trabalhos, penas, alegrias e esperanças. Os que regressavam com ele a Molesme usavam da liberdade que se lhes tinha sido dada, porque não amavam a solidão. Adivinha-se que a presença de Roberto tinha tido peso na sua decisão. Não se pode, porém, atribuir a ele falta de amor pela solidão. Nada na sua conduta nem em texto algum nos autoriza esta interpretação dos factos e das suas atitudes.

 

Tínhamos visto como o motivo da fundação de Cister era o dever de consciência contraído pelos monges ao fazerem profissão de viver segundo a Regra de são Bento  poder-se-á objectar: se Roberto deu provas de ser consciente desse dever ao deixar Molesme por Cister, tal conduta constitui a condenação do seu regresso. Porque, ao deixar o lugar em que ele  sabia que devia viver segundo a sua profissão, ele tornava-se perjuro. Mas, na realidade, a lei que autorizava a abraçar um estado de vida mais austero devia ceder perante a lei da necessidade, em caso de conflito real das obrigações. Ora a assembleia de Port-d'Anselle tinha declarado publica e solenemente que essa necessidade existia para os monges de Molesme, e a decisão foi tomada de comum acordo e confirmada pela autoridade apostólica de que o legado estava investido.

 

A relação dos factos tal como nos foi dada, completamente de acordo com os textos e o espírito que dominava os acontecimentos, basta para rejeitarmos como falsa a acusação de desobediência lançada contra Alberico e os seus três companheiros que viveram algum tempo em Vivicus.

 

Convém deter-nos, por um momento, na expressão mordaz inserida no relatório: “solita levitate”. Acabamos de dizer que o abade Godofredo cedia de boa vontade o seu lugar a Roberto; acrescentemos que, se este último viesse a deixar o seu lugar uma outra vez, "com a mobilidade habitual", nenhum outro seria admitido a substituí-lo sem o consentimento do legado, do bispo e de Godofredo. Não há dúvida de que estas palavras aludem às numerosas deslocações de Roberto, isto é, à presteza com que ele sempre tinha obedecido às inspirações da graça e às ordens da autoridade. Acabam precisamente de o intimar com uma nova ordem vinda do papa por intermédio do legado: Roberto tem de sacrificar a sua estabilidade em Cister. É, portanto, uma terceira ordem papal que o obriga a voltar a Molesme. A sua "mobilidade" não é, pois, um defeito afrontoso denunciado pelo legado, mas uma qualidade que ele reconhece em Roberto; usa um estilo informal muito do gosto do seu tempo; para ele, a "mobilidade" de Roberto, como a dos anjos, não é senão uma disponibilidade a deslocar-se para onde a obediência o chama. O prelado sabia-o muito fiel às suas obrigações e dócil às ordens expressas dos seus superiores; mais uma vez, tinha de provar essa docilidade. Podemos ainda dizer que Hugo deve ter querido ser diplomata, quer por se ver livre da afronta padecida, quer para quebrar as tensões e aliviar assim os que iriam sofrer com a situação um tanto ou quanto trágica. Mas, em todo o caso, era preciso contar com a eventualidade de um possível regresso de Roberto a Cister, ou porque  viesse a falhar a sua missão em Molesme ou porque ela acabasse, uma vez restabelecida a ordem e terminada a formação dum sucessor idóneo.

 

Esta "luta de procedimentos" deu lugar a um último documento, a saber: a carta demissória de Roberto concedida pelo ordinário de Chalon e dirigida ao seu colega de Langres14. O redactor do Exordium Parvum chama-lhe “acutum defensionis”, “escudo protector”. Simples pincelada bíblica, grata aos escritores medievais. Pode surpreender-nos ler, no fim dessa carta: «Não desdenhes recebê-lo e prestar-lhe as devidas honras». Esta cláusula não insinua a reparação duma censura merecida por Roberto pelo que quer que fosse. Pensemos nos esforços do bispo de Langres, Roberto de Borgonha, na cúria romana, e depois na assembleia de Port-d'Anselle, primeiramente para reter Roberto em Molesme e logo para o fazer voltar. Não podia deixar de se alegrar de vê-lo reaparecer, diante dele e regressar a Molesme, e de sentir-se edificado com a sua submissão.

 

Destaquemos ainda alguns pormenores do relatório da assembleia dirigido ao próprio bispo de Langres. Deu-se liberdade aos que tinham seguido Roberto ao "deserto" de regressar com ele se a nova vida lhes parecesse demasiado dura. “Alguns” – “quidam -, diz o Exordium Parvum, aproveitaram a licença porque "não gostavam da solidão". Interpretou-se, algumas vezes, esta censura como se ela se aplicasse também a Roberto: "volentem cogentes", "os conselheiros de Hugo constrangeram quem não pedia mais", como se lê em Guilherme de Malmesbury15. O texto do Exordium Parvum, única fonte autorizada, e que Guilherme parece ter ignorado, não permite esta interpretação. De Roberto, diz que o legado, a convite do papa e ajudado pelas luzes de pessoas dignas de confiança, tinha declarado: “Molismensi ecclesiae ipsum restituere decrevimus... nullo modo enim aliter sperabant pacem et quietem Molismensi ecclesiae posse restitui”: restituiu Roberto a Molesme, porque os requerentes não tinham nenhuma esperança de ver restabelecida neles, "por qualquer outro meio, a paz e a tranquilidade"16.

 

Quais e quantos eram os monges que regressavam com Roberto? O termo “quidam” pode significar, em relativamente ao total de vinte, uma meia dúzia. Para um número inferior, o autor teria usado os termos aliqui ou pauci. Se não se tratasse da metade, deveria entender-se normalmente plures. Entre eles encontrava-se Pedro, amigo de Estêvão Harding, também ele inglês de nascimento, mais tarde confessor das monjas de Jully e que assistiu santa Humbelina no seu leito de morte.

 

No fim do relatório, o legado nomeia as personagens presentes nas deliberações, a saber: os bispos de Autun, Chalon, Mâcon e Belley, os abades de Tournus, Dijon e Ainay, assim como Pedro oficial de câmara do papa, e algumas outras personagens "honestas e de boa reputação".

 

Era, pois, a segunda vez, que Hugo de Die, "mais gregoriano que o próprio Gregório", tinha salvado a reforma. O futuro parecia garantido, graças, sobretudo, à protecção do legado que lhes era dedicado e garante. No entanto, a paz restabelecida por vontade dos prelados e decisão do legado não devia durar muito.

 

No dia 29 de Julho seguinte, dois meses apensas depois destas medidas, falecia o papa Urbano II e o mandato de Hugo chegava ao fim. Era talvez a ocasião para os religiosos de Molesme voltarem às suas mesquinhezas e tentativas de pôr fim à reforma que os humilhava ao mesmo tempo que os escandalizava. Hugo manteve-se, como arcebispo de Lyon, e outras personagens entraram em cena para continuar a luta e dar à fundação uma existência sólida, ao abrigo de todos os ataques.

 

O ENTARDECER

DUMA VIDA ADMIRÁVEL

 

Roberto tinha setenta anos quando retomou o cargo abacial em Molesme. Durante os doze anos que lhe restaram, desenvolveu uma actividade notável, elevou o nível da comunidade ao ponto de adquirir uma excelente fama, cuja notícia nos é transmitida por este testemunho de 1105: «O bom odor da fama do mosteiro de Molesme, propagando-se por toda a parte, fez com que muitos barões o cumulem de benefícios e peçam aos monges que ergam novos mosteiros nos seus domínios»17. A expansão da abadia estendeu-se em pouco tempo ao Luxemburgo onde se erigiu o priorado de Useldingen; outras fundações tiveram lugar nas dioceses de Bâle e Lausana.

 

Entre as numerosas transacções em que estiveram interessados tanto a sua pessoa como o seu mosteiro, devemos destacar a elevação de uma antiga "cela" em abadia e um acordo entre Molesme, a sua filha Aulps e a sua neta Balerne. Em 1107 ou mais tarde, foi escrita uma acta entre Thierry, duque de Lorena, Pibon, bispo de Toul e Roberto, tendo por objectivo aceitar o pedido do duque para que fosse elevado em abadia o mosteiro de Châtenois, na dita diocese. A nova abadia ficaria dependente de Molesme, o que ficou expresso pela atitude do abade designado de não receber a cruz abacial das mãos de qualquer prelado ou príncipe, mas do altar. O seu governo e a sua pessoa foram colocados sob a solicitude do bispo e do abade de Molesme18. Em 1110,  concluiu-se a concordia Molismonensis, mas vamos ter ocasião de voltar a ela ao tratarmos do abadiado de Estêvão.

 

Roberto extinguiu-se no Senhor a 17 de Abril de 1111, depois de uma vida de lutas incessantes e trabalhos desbordantes, tendo adquirido numerosos méritos pelo grande zelo que empregara animado pelo fervor da vida monástica.



1 SPAHR, K., Das Leben..., p.11.

2 VAN DAMME, J.-B., Autour des origines cisterciennes, extracto das Collectanea O.C.R., 1958 e 1959, p.79.

3 LAURENT, J., Cartulaires…, t. I, pp.115-116 e t. II, pp.5-6.

4 Ibid., t. I, p.111 ss.

5 SPAHR, K., Das Leben..., p.13; VAN DAMME, Documenta..., p.21; idem, Autour..., pp. 139-140; GRISSER, B., Exordium Magnum..., p.62: «... dum cottidianas regulae lectiones in capitulo audirent et aliud regulam praecipere atque aliud consuetudines ordinis tenere perpenderent...»

6 LAURENT, J., Cartulaires..., t. I, pp.7-8; VAN DAMME, Documenta..., p.3.

7 SPAHR, J., Das Leben..., p.15.

8 Exordium Parvum, cap. 2, em Documenta..., p.6; tradução francesa de J. Bouton, em Pain de Cîteaux, nº15, pp.113-114.

9 Período de quinze anos; quando finaliza, recomeça-se pela unidade.

10 A indicção romana ou pontifícia, que ainda hoje figuram nas Bulas dos papas, começa mesmo no dia 1 de Janeiro, mas, naquele então, tratava-se da indicção imperial, que começava a 25 de Setembro.

11 MARILLIER, J., Chartes... nn. 4 a 12.

12 Exordium Parvum, cap. V-VI.

13 Exordium Parvum, cap. VII.

14 Exordium Parvum, cap. VIII

15 MALMESBURY, G., Gesta.., P.L.179, c.1289,B.

16 Exordium Parvum, cap.VII.

17 LAURENT, J., Cartulaires... t. I, p.152 nota 11.

18 LAURENT, J., Cartulaires... t. II, p.126-127.